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Um livro que me acompanha desde a juventude é "Fahrenheit 451", do escritor americano Ray Bradbury (1920-2012), adaptado ao cinema por François Truffaut. Em geral os críticos classificam a obra como uma ficção científica, mas há quem o defina como "distopia", ou seja, uma utopia negativa, que mostra um futuro sombrio e totalitário, como em "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, e "1984", de George Orwell. Embora tenha qualidades próprias, o romance lançado por Bradbury em 1953 de certa maneira é tributário dos livros de Huxley e Orwell, publicados respectivamente em 1932 e 1948. Acredito que essas três histórias ajudam a explicar o mundo em que vivemos hoje.

Na sociedade descrita em "Fahrenheit 451", os livros são proibidos pelo governo. Todos os livros. As pessoas recebem informações através de um reality show de televisão, mistura de novela, telejornal e programa de debates exibida em enormes telas instaladas nas paredes das casas. Ao mesmo tempo, para não caírem na depressão e no tédio, os cidadãos consomem altas doses de narcóticos distribuídos pelo governo (como as pílulas de "soma" em "Admirável Mundo Novo"). Televisão e droga: isso lhes parece familiar, cidadãos de 2017?

As casas de "Fahrenheit 451" são construídas com um material à prova de incêndio. Os bombeiros, na sociedade imaginada por Bradbury, têm outra função: em vez de trabalharem com mangueiras de água, eles utilizam lança-chamas para queimar os livros que algumas pessoas insistem em guardar clandestinamente. Uma das cenas mais aterradoras do livro é de uma mulher que se oferece em holocausto e morre queimada junto com sua biblioteca.

A partir desse trágico acontecimento, um bombeiro chamado Guy Montag começa a questionar a legislação contra os livros e o vazio de sua existência. Por meio de uma jovem vizinha, conhece a Tribo dos Homens-Livro, fascinante sociedade clandestina onde as pessoas decoram clássicos da literatura universal e se tornam depositários da alta cultura perseguida.

Os lança-chamas da atualidade têm outro nome: ideologia politicamente correta. Alguns ditos donos da verdade querem decidir o que podemos e não podemos pensar, falar, escrever. Se digo, por exemplo, que pichação não é arte, que funk carioca não é música e que determinado canal de TV não pratica jornalismo, sou imediatamente atacado pelos bombeiros da linguagem. Se cito Deus na coluna, sempre aparece um militante vira-laico dizendo-se ofendido.

O próprio Ray Bradbury sentiu esse drama na pele, quando teve passagens de seus livros vetadas e distorcidas por bombeiros da consciência alheia: "Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos. Cada minoria acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar o querosene e acender o pavio".

A ideologia é a maneira pela qual a censura tenta queimar aqueles que ousam falar a verdade em nosso tempo. Portanto, em nome da "justiça social" e dos "oprimidos", queime esta crônica!

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