Quando o carteiro chegou
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de outubro de 2016
por Paulo Briguet 

Ah, meus amigos. Se eu pudesse, só escreveria sobre as pessoas e coisas que amo. Um dia realizarei o sonho de falar apenas sobre Deus, família, recordações, livros, canções, sinfonias, Londrina, cerveja, catedrais góticas e sete amigos.
Estava eu voltando para casa, um tanto exausto com o desconcerto do mundo também chamado política ou notícias do dia quando o carteiro me entregou um envelope. Excepcionalmente, não eram contas a pagar nem propagandas de cartão de crédito (o crédito que não tenho). Era um livro. Um livro de poemas intitulado "Do nascer ao pôr do sol, um sacrifício perfeito", de Hugo Langone.
Um título desses é uma verdadeira covardia! Pô, Hugo, você não sabe que eu tenho um montão de prazos a cumprir, trabalhos a entregar, calúnias a desmentir, polêmicas a alimentar, não? Um livro assim a gente acaba tendo que abrir e ler inteirinho...
Foi o que eu fiz. E querem saber? Não me arrependi nem um pouco.
Ao virar a última das 70 páginas de "Do nascer ao pôr do sol, um sacrifício perfeito" (eu não me canso de repetir esse título), senti aquela estranha paz que nos foi prometida pelo Filho do Homem, uma paz que não é deste mundo. E, embora tenha chorado na leitura de um poema, percebi que meu coração estava tomado pela Alegria (assim mesmo, em letra maiúscula, como ela se fosse uma pessoa, do jeito que C. S. Lewis gostava).
O poema "27 de outubro", dedicado a Camila Lavôr, esposa do poeta, revestiu-se de especial significado porque o carteiro chegou exatamente nessa data. É um poema que fala dos sinais em nossa vida: "Mas deixemos, meu amor, por um instante/ Que falem/ E eis que a vida inteira por si só/ Refloresce".
Entre ecos da melhor poesia de todos os tempos Bíblia, Dante, Yeats, Eliot , Hugo Langone celebra o caráter sagrado da casa que habitamos não só desde a infância, mas desde um tempo anterior a nós mesmos: "Haverá dia algum uma casa/ Que ignore a dor da saudade,/ Que não viu o momento em que a vida/ O finito deu à eternidade?"
Então, vem uma seção do livro intitulada "Sursum Corda" expressão que usamos na missa católica ("Corações ao alto"). Nesse momento eu me lembrei da tese do grande crítico literário Northrop Frye, para quem toda a literatura enfatizo: toda a literatura tem origem no texto bíblico. A poesia é, portanto, um reflexo da liturgia, mesmo que não se assuma como tal.
Mas eu falava do poema que me fez chorar. Lá está ele, à página 59 do livro que o carteiro trouxe: "Prendo a vista na cidade:/ os carros cruzam as ruas,/ a chuva,/ cruzam a interminável paisagem,/ as cores do semáforo,/ cruzam este uísque que me cruza,/ tudo,/ tudo cruzam, esses carros". E o poeta prossegue: "Em algum lugar do mundo/ um barco atravessa o mar,/ alguém perde a carteira,/ uma mãe vela o filho/ morto/ sob uma chuva/ que teima em cair,/ igual,/ em tanto lugar do mundo". Aqui eu parei e chorei. E choro novamente, ao escrever estas linhas.
A chuva que o carteiro trouxe tem um nome, e esse nome é misericórdia.
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