Imagem ilustrativa da imagem Quando morre um santo
| Foto: Marcos Zanutto



Alguém já disse que todos os sábios morrem a mesma morte e na mesma cidade. Ao que tudo indica, Shakespeare e Cervantes morreram no mesmo dia e no mesmo ano, talvez na mesma hora. O filósofo Eric Voegelin morreu ouvindo o Salmo 25: "Guarda-me a vida! Liberta-me! Que eu não seja envergonhado por abrigar-me em ti! Que a integridade e a retidão me preservem, pois em ti eu espero, Senhor!" O filósofo Mário Ferreira dos Santos morreu pedindo aos familiares que o erguessem, pois não queria deixar o mundo deitado. Partiu recitando as palavras do Pai-Nosso.

Mas e os santos? E Dom Albano, que morte morreu? Em que cidade deixou este mundo? Quais as suas últimas palavras? Para mim, foram um pedido de oração e uma frase gravada no WhatsApp: "Precisamos conversar, meu amigo". Pai, mãe, vejam só: a vida do seu filho não foi totalmente em vão! O homem mais importante da nossa cidade, guia espiritual de nosso povo, me chamou de amigo! É muita honra para tão pequeno cronista.
Os judeus do Leste Europeu tinham uma lenda que nos é contada pelo escritor polonês Isaac Bashevis Singer, segundo a qual existem 36 santos ocultos no mundo, que vivem como homens humildes, sem nenhuma grandiosidade, mas dos quais depende a existência do universo. Dizem que Deus só não destrói o mundo por causa desses 36 santos.
Quando um deles morre, a estrutura da realidade sofre um perigoso abalo, e os anjos saem em busca de outro santo para substituí-lo. Tenho a certeza íntima de que ontem aconteceu um desses abalos. O arco-íris da manhã londrinense — nosso céu tem maravilhas mesmo quando está nublado — já era um anúncio do que viria a acontecer no começo da tarde.
Quando morre um santo, um arco-íris aparece, um canário deixa de cantar e um silêncio percorre as árvores do bosque. Uma taça se quebra e uma criança chora sem motivo aparente. Uma história deixa de ser contada; um riso deixa de ser ouvido; um braço fica suspenso no ar, como uma velha peroba, esperando pela chegada de alguém que não vem, mas de quem se ouve claramente a voz para sempre: "Estou aqui".

Voegelin morreu ouvindo o Salmo 25, Mário morreu rezando o Pai-Nosso, Sócrates morreu falando de um galo e da vida eterna, Madre Leônia morreu na estrada para Cambé... E Dom Albano? Morreu quando lhe tocaram o coração. Agora, ele se transformou naquilo que o poeta Maiakovski cantava: "Comigo a anatomia ficou louca — Sou todo coração!" Voegelin morreu em Stanford, Mário morreu em São Paulo, Sócrates morreu em Atenas, Dom Albano e Madre Leônia morreram em Londrina. Mas não se iludam com essas denominações geográficas: na verdade, os santos e os sábios morrem todos na Cidade de Deus. Eles estão morrendo e renascendo no exato instante em que você lê estas palavras.
Agora, nosso amigo deve estar lá, contando uma história para Dom Geraldo e Madre Leônia — e olhando para a cidade que mais amou nesta vida. Dom Albano, rogai por nós!

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