Imagem ilustrativa da imagem Professor da UEL denuncia aparelhamento de estudantes


Galdino Andrade é professor do Departamento de Microbiologia da UEL há quase 30 anos. Pesquisador respeitado em sua área, com PhD na Espanha e pós-doutorado na Inglaterra, ele participou ativamente do movimento sindical dentro da Universidade nos anos 90. Estivemos juntos durante uma "ocupação" da Reitoria em março/abril de 1990. Embora o estilo das reivindicações da época fosse muito diferente — não havia depredações e o discurso era bem mais moderado —, já havia uma nítida participação dos sindicatos e partidos da esquerda nas pautas da política universitária. Após o impeachment de Dilma, as universidades e escolas públicas se tornaram as principais trincheiras do PT na sua tentativa de reagir à Operação Lava Jato e retomar o poder central do País. Galdino conhece por dentro a estrutura e o modus operandi da esquerda no ambiente universitário. Ele concedeu uma entrevista reveladora e exclusiva sobre o aparelhamento dos movimentos estudantis e sindicais pelos partidos de esquerda:

Avenida Paraná: Nós participamos juntos do movimento grevista em 1990, quando "ocupamos" a reitoria. Quais as diferenças entre aquela época e hoje?
Galdino Andrade:
Nós participamos de um movimento aonde o movimento estudantil tinha clareza das suas propostas e independência política e de atuação durante a ocupação. Hoje o movimento dos estudantes em grande parte é um mero marionete dos partidos de esquerda que controlam o Sindiprol-Aduel para fazerem a política do quanto pior melhor. Estão utilizando uma minoria de estudantes com o objetivo de parar a universidade na marra. Este movimento de paralisação que estamos vendo dentro da UEL e fora é coordenado por membros dos sindicatos dos professores e de partidos políticos de esquerda.

Como você analisa a postura dos sindicatos e a realização de assembleias na UEL?
Já participei do Sindicato dos professores na década de 80/90 e na época tínhamos uma pauta clara reivindicatória assim como os estudantes tinham suas bandeiras de luta e os funcionários as suas. Eram movimentos independentes e convergiam para a melhoria do ensino, pesquisa e extensão e claro pela melhoria salarial. Hoje o controle do movimento estudantil por professores é um problema já que as reivindicações fogem completamente de questões institucionais e se transformaram em política partidária, uma política nefasta do "quanto pior, melhor". Uma pena que o movimento estudantil não tenha independência. Muitos caíram para termos liberdade democrática, e se estivessem vivos certamente não concordariam com o que está acontecendo.

Você é professor do Departamento de Microbiologia há quase 30 anos, um apaixonado pelo que faz e pela universidade. De que maneira o aparelhamento ideológico tem prejudicado a principal finalidade da UEL, ou seja, a produção de conhecimento?
Na área de ensino/pesquisa, o aparelhamento não nos tem prejudicado tanto, já que temos independência para pesquisarmos o que quisermos. No ensino já há um efeito negativo. Por exemplo, hoje os grandes problemas financeiros da Universidade passam pela gratuidade do ensino. Quando estudei a UEL era paga, uma mensalidade que cabia no bolso de qualquer um. O governo Alvaro Dias deu a gratuidade do ensino, uma bandeira de luta do movimento estudantil do qual eu fazia parte. Foi uma vitória, mas não sabíamos que todo o custeio da UEL era pago com este dinheiro, e hoje ele faz falta. Isto refletiu diretamente na qualidade das aulas, pois com a falta de dinheiro não temos como comprar material para as aulas práticas e nem dar manutenção nos equipamentos e prédios da UEL, ou comprar novos. Sem contar transporte para aulas de campo, livros, etc. Tudo isto reflete na qualidade do ensino.

De que maneira o PT, o PSOL e outros movimentos de esquerda se infiltraram na UEL a ponto de dominar toda a estrutura da instituição?
Eles sempre existiram na UEL, na época em que eu era estudante durante o regime militar os partidos dominantes eram o PC do B, PCB e o PT mais tarde, as siglas foram mudando durante os anos, umas sumiram e outras surgiram, mas a ideologia marxista é a regra. Com a democratização da universidade e a mudança no regimento, foram formados os diferentes conselhos e câmaras com diferentes importância na deliberação dentro da estrutura. O aparelhamento começa aí, as Câmaras de Ensino e Extensão tem nos seus membros um perfil mais de esquerda o que já não ocorre na Câmara de Pesquisa e de Pós-graduação, por motivos óbvios. As universidades brasileiras e aqui incluo a UEL tem um perfil de esquerda um resquício ainda da luta contra a ditadura, mas ela acabou há décadas. Existem ainda Dom Quixotes e Sanchos Panças que lutam contra uma direita imaginária, apocalítica e esse discurso ainda cola principalmente na categoria menos experiente como a dos estudantes. Não estou aqui dizendo que eles não sabem nada ou são desinformados, estou dizendo que uma minoria de estudantes adota o discurso socialista sem saber ao certo que essa ideologia só gerou miséria, opressão e morte.

Como os professores, funcionários e estudantes contrários ao aparelhamento podem se organizar?
Essa é uma boa questão. O perfil dos estudantes muda de acordo com o curso que fazem: os cursos de humanas e o de Geografia possuem um perfil mais a esquerda, já os das áreas de agrárias, exatas, biológicas e tecnológicas, com algumas exceções, têm um perfil mais liberal. Mas um processo muito interessante está acontecendo: até uns anos atrás, se alguém dizia ser contra a esquerda dentro da universidade era o mesmo que pedir para ser imediatamente rotulado de fascista, ditador e outras bobagens. Hoje os docentes que são liberais — e aqui eu me incluo — não temos mais medo ou receio de defender o liberalismo, de fazer contraponto ao socialismo. Eles tiveram durante décadas a hegemonia da verdade absoluta, o que na realidade é uma falácia sustentada na ideia de que o socialismo é um regime que melhora a renda, o bem-estar e a democracia de uma nação. Essa mentira foi tida como verdade até uns anos atrás e hoje já existem pessoas que estão destruindo esta mentira, esclarecendo e discutindo o assunto dentro da universidade. A própria postura do Sindiprol e as deliberações da última assembléia docente reflete isto. Várias questões aprovadas vêm em direção de proteção dos estudantes invasores, um fato inédito. Isso ocorre porque eles estão sozinhos, são uma minoria isolada, uma vez que o próprio movimento estudantil de esquerda não tem apoio da sua base, porque não a representa. Imagine você que foi convocada no CCB uma tal de assembleia unificada entre professores e estudantes para discutirem o movimento estudantil e seus encaminhamentos. Aí eu pergunto: o que professor tem haver com movimento estudantil e seus encaminhamentos? Nada. Quem eram a maioria dos professores que estavam lá? Militantes dos partidos de esquerda. Não preciso dizer mais nada, não é mesmo? A ingerência é clara. Quanto à grande maioria dos estudantes, eles estão calados, mas não quer dizer que estejam indiferentes, é um erro pensar isso. Nos próximos anos veremos seguramente lideranças liberais surgirem dentro do movimento estudantil.

De alguma forma você tem sido prejudicado por sua postura crítica aos movimentos esquerdistas?
Como você sabe eu participei do movimento estudantil e depois como docente fui do movimento sindical e também militei no PT por alguns anos. Tenho muitos amigos dentro do movimento e respeito muitos deles podemos não concordar politicamente mas quando conversamos não falamos de política. Alguns ficam indignados com minha postura e me criticam mas a crítica é um estímulo e me dá a certeza de que estou no caminho certo. Quanto ao socialismo, eu desacreditei quando fui fazer o doutorado na Europa e visitei vários países socialistas, nos quais tenho vários amigos, e vi a privação de liberdade, a pobreza e a ineficiência do Estado. Ali entendi que a ideologia socialista é uma grande mentira, e quem realmente gera inclusão social, desenvolvimento econômico e liberdade é o liberalismo. Dentro da UEL nunca senti patrulhamento e perseguição, pelo menos comigo. Por outro lado, cientificamente meu grupo de pesquisa tem reconhecimento internacional e temos publicado dezenas de trabalhos científicos em revista de renome internacional, geramos várias patentes para a UEL, formamos mestres e doutores em diferentes programas de pós-graduação. Sou pesquisador de produtividade cientifica do CNPq. Sempre trabalhei pela UEL e dedico minha vida a ela, tentando fazer com competência o meu trabalho. É triste ver o buraco em que estão tentando empurrar a nossa universidade por interesses meramente partidários.

A comunidade londrinense pode ajudar a UEL?
A comunidade deve ajudar a UEL principalmente nesta bagunça que está acontecendo lá. Estas invasões da Reitoria e Rádio não tiveram a menor lógica. Temos de proteger a instituição de qualquer jeito, o que está acontecendo é um profundo desrespeito à reitora Berenice Jordão e a toda comunidade universitária . Esses estudantes não têm representatividade nenhuma e estão defendendo interesses de partidos políticos e de professores ligados a eles, são os mesmos partidos que controlam o Sindiprol-Aduel, APP-Sindcato, UBES e UNE e estão envolvidos nas invasões das escolas públicas e de outras universidades. Quando um movimento é legítimo, isso passa pela representatividade e pauta de reivindicações. Quando fizemos greve e invasões décadas atrás sabíamos perfeitamente dos riscos que corríamos, e nunca precisamos de babás. Agora, temos vandalismo e invasões que prejudicam toda a comunidade universitária para defender questões ideológicas-partidárias. Isso não devem ser tolerado. É contravenção — e para a contravenção existe o rigor da lei.

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