Procuro meu pai
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terça-feira, 19 de junho de 2018
por Paulo Briguet 

Lembro-me como se fosse agora da primeira vez em que pensei na morte. Estava brincando de Falcon no quarto do nosso apartamento em São Paulo, diante do rádio-relógio da Philco; de repente, sem qualquer motivo, imaginei o que aconteceria depois que todos fossem embora, inclusive eu mesmo. Levantei e fui até a sala, mas meu pai já tinha saído para o trabalho.
Desde aquele dia adquiri esse estranho hábito. Procuro meu pai nos poemas de Manuel Bandeira, que ele gostava de recitar nas reuniões de família, com a voz muito grave e penetrante: "A vida inteira que poderia ter sido e que não foi". Procuro meu pai nas angústias de Pedro Bezukhov, depois de se bater em duelo com um inimigo, em "Guerra e Paz", ou em Henry Miller percorrendo as vielas noturnas de Paris em "Trópico de Câncer". Procuro meu pai sempre que o telefone toca; do outro lado pode ser ele imitando a voz de Nelson Rodrigues.
Procuro meu pai numa reunião política nos anos 60, da qual participaram seus dois melhores amigos, Arno Preis e João Leonardo, depois desaparecidos. Procuro meu pai na cozinha, tarde da noite, enquanto ele e minha mãe leem uma carta enviada do exílio. Nas ruas do Brás, em São Paulo, procuro meu pai voltando para a pensão depois de ter trabalhado o dia inteiro, para a varar a noite estudando latim e inglês.
Na Cantina do Nonoca e no Kotovelos, que ainda existem, e no Bar do Paulinho e no Clube da Esquina, que não existem mais, olho sempre para as mesas na esperança de encontrá-lo tomando meia cerveja. Quando passo pela Rua Cacilda Becker, sempre dou uma espiada para ver se ele ainda me espera no portão de casa. E o que dizer do Lago Igapó, onde caminhamos depois que ele fez a última sessão de quimioterapia, sem o menor sinal de cansaço? Procuro meu pai nas margens.
Se vou passear com o Cisco e o parquinho das crianças está vazio, procuro meu pai. Parquinhos o faziam lembrar do filme de Kurosawa que ele vira na adolescência em Mirandópolis: "Viver". Naquela mesma cidade, ele me levou ao cinema pela primeira vez; o filme era "O Robin Hood Trapalhão". Quantas vezes não fomos juntos ao cinema em Mirandópolis, em Londrina, em São Paulo? Procuro meu pai em todas as salas escuras, mas também à luz do Sol.
Procuro meu pai indo me buscar de Fusca na maternidade. Ou viajando com a família para Itanhaém na Brasília verde placas UM 1270 , só para chegar na praia e cantar imitando o sotaque lusitano: "Eu vim aqui pra tomar banho de maire/ Eu vi, eu vi, passarinhos a voaire..." Ou ainda me levando à farmácia da esquina para tomar uma Benzetacil e depois, um guaraná caçulinha. Procuro meu pai em todos esses detalhes insignificantes da vida.
Mas eis que o Pedro me pede emprestado o caderninho de anotações. Enquanto eu e Rosângela tomamos café, ele escreve. Procuro meu pai e o encontro nas mãos de meu filho.
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