Imagem ilustrativa da imagem Prezado Senhor Frias
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Na terça-feira morreu em São Paulo, aos 61 anos, o jornalista Otavio Frias Filho, diretor de redação do jornal Folha de S. Paulo. A morte de Frias me fez lembrar uma carta que escrevi ao jornal paulistano por ocasião da morte de meu pai, Paulo Lourenço, ocorrida em 21 de dezembro de 2008. Espero que Frias, onde esteja agora, possa lê-la e se emocionar como eu me emocionei.

"Prezado Senhor,

Há exatamente um mês, morreu aos 67 anos, em Bauru (interior paulista), aquele que pode ser chamado, sem dúvida alguma, de leitor-símbolo da Folha de S. Paulo: o advogado, bancário aposentado e cronista Paulo Lourenço. Assinante da Folha nas últimas quatro décadas, ele lia diariamente, com fidelidade religiosa, o jornal do começo ao fim. Quando viajava, transferia a entrega do jornal para o endereço em que se encontrava. Filho e amigo de Paulo Lourenço, cheguei a acompanhar algumas 'síndromes de abstinência' dele, quando por alguma razão ele não recebia o jornal de manhã. Cheguei a percorrer várias bancas da cidade em busca de um exemplar da FSP nesses dias.

Mas Paulo não se limitava a ser um leitor assíduo e fiel; era também um leitor crítico e participativo. Mexendo nas suas gavetas, encontrei, devidamente datadas e organizadas, as 18 cartas que ele escreveu ao jornal nos últimos anos. Também era seu costume dar sugestões e fazer comentários ao ombudsman - desde que a função foi criada na FSP. O obituário era uma de suas obsessões: lia-o com redobrada atenção todos os dias. Por meio da seção, ficou sabendo da morte de diversos amigos e familiares distantes.

Era um atento leitor das críticas de cinema; ao longo dos últimos anos, elaborou uma lista de mais de 500 filmes segundo a classificação de ótimos, bons, regulares e 'bombas' (tenho em mãos a lista; é ótima). Nem sempre concordava com a opinião dos críticos da Folha, mas sua principal implicância era com os 'spoilers' encontrados em textos de não-especialistas.

Nascido em Santa Adélia (SP) em janeiro de 1941, funcionário aposentado do Banco do Brasil (trabalhou na agência Centro de São Paulo) e ex-vizinho da Folha (morou por seis anos na Alameda Barão de Limeira), Paulo Lourenço era formado em direito pela USP e ex-morador da Casa do Estudante, na Avenida São João. Viveu e trabalhou por 20 anos em Araçatuba (SP).

Nos últimos anos, já morando em Bauru, suas principais atividades, além de ler a Folha de S. Paulo e cuidar da família com uma dedicação comovente, estavam ligadas à literatura. Escrevia espirituosas crônicas memorialísticas (publicou um livro, 'Diário de Moby Dick') e tinha na cabeceira, ao morrer, livros de Manuel Bandeira, Ivan Lessa, Cristóvão Tezza e Isaac Bashevis Singer. Em 21 de dezembro de 2008, não resistiu a complicações respiratórias decorrentes de câncer. A Folha perdeu um de seus leitores mais fiéis; a família e os amigos perderam um companheiro e conselheiro inesquecível. Deixa viúva, dois filhos e uma neta.

Atenciosamente,
Paulo Briguet, filho de Paulo Lourenço."

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