Perdido no tempo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
por Paulo Briguet 

Venho de um tempo distante. Tempo em que os militares prestavam continência à bandeira nacional sem que ninguém lhes incomodasse por isso. Tempo em que os homens pediam a mão das mulheres em casamento, e todos achavam isso muito romântico e adequado. Tempo em que as pessoas não corriam o risco de fazer o sinal da cruz e algum locutor dizer que o gesto não passa de "marketing".
Sou de um tempo em que os jovens militantes de esquerda achariam uma coisa muito feia receber uma quantia qualquer quantia proveniente de alguém como George Soros. Venho de um tempo em que a esquerda londrinense teria vergonha de fazer aliança com determinados grupos políticos da cidade. Tempo em que, se um político ou atleta fosse vaiado, sim, ele poderia reclamar; sim, ele poderia dizer, como Ulysses Guimarães, que "a vaia é um direito democrático"; mas não, ele jamais registraria B.O. na delegacia de polícia pelo simples fato de que o criticaram e xingaram.
Estou mais fora de moda que suspensórios, galochas e bules de café. Venho de um tempo em que os pais comemoravam quando os filhos eram aprovados na universidade pública e anteviam para eles um futuro de felicidades e realizações na vida. Agora, de maneira cada vez mais frequente, os pais se angustiam diante da súbita transformação de seus rapazes e garotas em seres desprovidos de razão, sentido ou perspectiva de futuro.
Na mais tenra juventude, estes entram em um processo de autodevastação, tornando-se em pouco tempo a ruína do que eram os sonhos de seus pais. Tantas vezes as famílias atuais assistem, atônitas, aos pequenos príncipes e princesas metamorfoseados em zumbis ideológicos e escravos do vício. Não me peçam para rir deste fenômeno, que pode ser comprovado por uma simples excursão às redes sociais; eu não rirei, pois nada existe de engraçado na devastação.
Estou mais por fora que dedão de franciscano. Venho de um tempo em que professores jamais teriam medo de um cartaz que mostrasse os seus deveres profissionais. Tempo em que escola não era lugar de strip-tease nem de pichação. Tempo em que um homem poderia fazer uma gentileza a uma senhorita e ela não reagiria de forma hostil. Tempo em que ainda era permitido aos moços elogiar uma garota sem ser acusado de assédio. Venho de um tempo em que "estuprador" era a pior ofensa que se poderia fazer a um homem pois estuprador é aquele que mata a vítima deixando-a viva , e jamais um termo utilizado ao bel-prazer por militantes assassinos de reputação.
Venho do tempo em que assistíamos às viagens de Tony e Doug no seriado "Túnel do Tempo". Mas nem eles seriam capazes de imaginar uma época tão desconcertante quanto a nossa. O mais incrível é que, pensando bem, não faz tanto tempo assim.
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