Imagem ilustrativa da imagem Perdido no Brás
| Foto: Shutterstock



Tivemos uma certa dificuldade para achar a Cantina Castelões no Brás, em São Paulo. O GPS ficou dando voltas e mais voltas nas mesmas ruas; não fosse a diligência do meu amigo Zé, que pacientemente nos orientou por celular, não teríamos encontrado a velha pizzaria. O mais engraçado foi quando um imenso caminhão-baú interditou a rua de mão única em que passávamos, obrigando-nos a esperar por uns cinco minutos, enquanto homens descarregavam sacas de um produto não identificado. Quero dizer, é engraçado agora; na hora, nem tanto.

Aquelas voltas pelo antigo bairro operário devem ter causado uma funda impressão na minha alma, pois à noite eu sonhei que estava perdido no Brás. Andava em círculos pelos mesmos bares da Rua do Lucas; passava pela tradicional escola técnica do Sesi; encontrava pela enésima vez a Rua do Gasômetro com suas duas pistas de uma só direção; observava os prédios antigos e cinzentos e por eles era observado; a igreja de Bom Jesus tudo testemunhava. Não era mais o Brás antigo e romântico, dos livros de Alcântara Machado; era o Brás atual, soturno e degradado, onde a Cantina Castelões é uma espécie de cápsula do tempo, uma Arca de Noé das pizzas. Mas não havia Castelões no meu sonho.

Em geral, telefones não funcionam nos meus sonhos — muito menos os celulares. Desta vez não foi diferente. Eu andava pelo Brás em busca de um rosto amigável, mas só via figuras fechadas em si mesmas: ou bebiam, ou fumavam, ou conversavam em dialeto. De algum lugar, vinha um som estridente e insuportável, que inexplicavelmente pensei tratar-se de um tecnobrega. Eu tentava compreender o que a cantora dizia no refrão da música, mas a voz se dividia em fonemas indóceis, que escapavam do meu entendimento como um passarinho escapa das mãos de uma criança que tenta segurá-lo.

Lembrei então que meu pai trabalhou no Brás, depois de passar no concurso do Banco do Brasil, nos anos 60. A agência dele ficava na Avenida Rangel Pestana. Em qual destes velhos prédios meu pai terá morado, antes de se mudar para a Casa do Estudante, na Avenida São João? Não sei e nunca saberei. Terá ele frequentado algum desses botecos, ou os botecos da sua época não existem mais? Não sei e nunca saberei. Terá ele um dia experimentado a pizza da Castelões? Mas aqui não há Castelões!

De repente, na Rua do Gasômetro, vejo uma porta entreaberta. Caminho por um corredor estreito e penumbroso, atrás de uma luz amarela gordurosa que não sei de onde vem. Alguma coisa me diz que ali encontrarei ajuda: uma indicação, um conselho, um simples copo d’água. Luzes vermelhas de um carro da polícia se refletem na parede úmida do corredor. Antes de provar que focinho de porco não é tomada, posso ser preso. Não tenho dinheiro para fiança, não sei o telefone de ninguém, nem mesmo o nome de ninguém...

Abro os olhos, estou em casa. Mas talvez uma parte de mim continue perdida no Brás: ainda ouço aquele tecnobrega.

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