Perdido no Brás
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
por Paulo Briguet 

Tivemos uma certa dificuldade para achar a Cantina Castelões no Brás, em São Paulo. O GPS ficou dando voltas e mais voltas nas mesmas ruas; não fosse a diligência do meu amigo Zé, que pacientemente nos orientou por celular, não teríamos encontrado a velha pizzaria. O mais engraçado foi quando um imenso caminhão-baú interditou a rua de mão única em que passávamos, obrigando-nos a esperar por uns cinco minutos, enquanto homens descarregavam sacas de um produto não identificado. Quero dizer, é engraçado agora; na hora, nem tanto.
Aquelas voltas pelo antigo bairro operário devem ter causado uma funda impressão na minha alma, pois à noite eu sonhei que estava perdido no Brás. Andava em círculos pelos mesmos bares da Rua do Lucas; passava pela tradicional escola técnica do Sesi; encontrava pela enésima vez a Rua do Gasômetro com suas duas pistas de uma só direção; observava os prédios antigos e cinzentos e por eles era observado; a igreja de Bom Jesus tudo testemunhava. Não era mais o Brás antigo e romântico, dos livros de Alcântara Machado; era o Brás atual, soturno e degradado, onde a Cantina Castelões é uma espécie de cápsula do tempo, uma Arca de Noé das pizzas. Mas não havia Castelões no meu sonho.
Em geral, telefones não funcionam nos meus sonhos muito menos os celulares. Desta vez não foi diferente. Eu andava pelo Brás em busca de um rosto amigável, mas só via figuras fechadas em si mesmas: ou bebiam, ou fumavam, ou conversavam em dialeto. De algum lugar, vinha um som estridente e insuportável, que inexplicavelmente pensei tratar-se de um tecnobrega. Eu tentava compreender o que a cantora dizia no refrão da música, mas a voz se dividia em fonemas indóceis, que escapavam do meu entendimento como um passarinho escapa das mãos de uma criança que tenta segurá-lo.
Lembrei então que meu pai trabalhou no Brás, depois de passar no concurso do Banco do Brasil, nos anos 60. A agência dele ficava na Avenida Rangel Pestana. Em qual destes velhos prédios meu pai terá morado, antes de se mudar para a Casa do Estudante, na Avenida São João? Não sei e nunca saberei. Terá ele frequentado algum desses botecos, ou os botecos da sua época não existem mais? Não sei e nunca saberei. Terá ele um dia experimentado a pizza da Castelões? Mas aqui não há Castelões!
De repente, na Rua do Gasômetro, vejo uma porta entreaberta. Caminho por um corredor estreito e penumbroso, atrás de uma luz amarela gordurosa que não sei de onde vem. Alguma coisa me diz que ali encontrarei ajuda: uma indicação, um conselho, um simples copo dágua. Luzes vermelhas de um carro da polícia se refletem na parede úmida do corredor. Antes de provar que focinho de porco não é tomada, posso ser preso. Não tenho dinheiro para fiança, não sei o telefone de ninguém, nem mesmo o nome de ninguém...
Abro os olhos, estou em casa. Mas talvez uma parte de mim continue perdida no Brás: ainda ouço aquele tecnobrega.


