Perdão, Seu Zé
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de julho de 2016
por Paulo Briguet 

Nesta semana o empresário José Eduardo de Andrade Vieira (1938-2015) recebeu postumamente o Prêmio "Pinheiro de Ouro", concedido pelo Sesi Paraná, nos 70 anos da entidade.
Ao ver sua filha Allessandra recebendo a honraria das mãos do presidente da Fiep, em emocionante solenidade realizada em Curitiba, pensei nas injustiças que, ainda jovem, cometi contra o Seu Zé.
Senador, ministro, presidente do Bamerindus, produtor rural e superintendente da Folha de Londrina, José Eduardo sempre foi visto com muito preconceito e arrogância por nós que militávamos na esquerda sindical dos anos 90. Livre dessa ideologia medonha que acabaria por destruir o país, como todos vimos nos últimos anos , sinto hoje a necessidade moral de lhe fazer um pedido de desculpas, infelizmente póstumo, tal como a honraria que ele recebeu. Não faço isso por solicitação de ninguém, porque nada me foi me exigido, a não ser pela minha consciência moral.
Sejamos claros: a esquerda paranaense odiava Seu Zé. Não exatamente ele, mas tudo que ele representava: a personalidade, o caráter, a obstinação, a ousadia, o trabalho, o estudo, a tradição familiar, a racionalidade objetiva, o liberalismo econômico, o conservadorismo político, a defesa da livre iniciativa, a visão humanista do sistema financeiro e a valorização do mérito. Tudo isso que até hoje impede o Brasil de ser completamente entregue aos lobos.
Eu participei desse ódio. Na condição de militante do movimento estudantil e depois dirigente sindical, durante a década de 90 escrevi inúmeros textos que atacavam impiedosamente o então senador. São escritos dos quais hoje ninguém se lembra exceto eu. "Todos nós temos capítulos de nossas vidas que não gostaríamos de ver publicados", diz o protagonista de Downton Abbey. Ter escrito sobre o Seu Zé, sem o devido respeito que ele merecia, foi um dos meus capítulos obscuros. Mas, como foi publicado, é justo que também seja público o posfácio.
Quando encerrei o meu primeiro período na Folha de Londrina, onde fui repórter e redator entre 1994 e 2000, tive uma longa conversa com José Eduardo de Andrade Vieira. Generosamente, ele me olhou nos olhos e disse que me admirava. Aos 29 anos de idade, não tive a grandeza de retribuir da mesma forma. Faço-o agora, estendendo a minha mão para alguém que não está mais aqui, mas cuja obra continua em cada uma destas páginas.
Depois das tempestades que o Brasil viveu nos últimos 13 anos e não foi por falta de aviso, Seu Zé é um alento concluir que nem tudo está perdido. A ideologia destruiu o País, mas não nos destruiu.
Perdão, Seu Zé. Um dia vamos retomar aquela conversa.
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