Parabéns pra vocês

De manhã, depois de rezar o terço, estava eu fazendo café aqui na casa de minha tia quando vi a velha fruteira. Por um instante, parei para contemplá-la e me dei conta, admirado, de que este simples objeto me acompanha desde a primeira infância. Sim, eu me lembro da mesma fruteira na casa da Vó Maria em São Paulo. Ficava sobre uma mesa de fórmica, na cozinha. Certa manhã eu tinha três ou quatro anos pus-me a correr sem freios em direção à cozinha, onde Vó Maria estava preparando o almoço, e bati com a testa na quina da mesa. Vó Maria ficou tão revoltada que pegou uma serra de meu avô para cortar a quina responsável pelo galo que se formou na testa do netinho. É lógico que ela ficou com raiva da mesa, não de mim. Aí está a fruteira, que não me deixa mentir.
Hoje faço 47 anos. É quase certo que a fruteira seja mais velha do que eu. Ela foi testemunha silenciosa de nossos aniversários, nossos natais, nossos anos-bons, nossas páscoas, nossos almoços em família. Refletiu a luz das manhãs e mergulhou na penumbra das noites. Viu os risos e as lágrimas que até hoje ecoam e jorram pela memória de meu povo. Nunca disse uma palavra; seu silêncio de cristal perdura e ainda vai perdurar por muito tempo. Um dia, talvez meu filho ou meu neto a encontre em alguma futura casa da família, e perceberá que existe na velha peça algum tipo de escrita invisível, as sombras de uma alegria melancólica acumulada pelo tempo.
Rezando o terço, meditei sobre os mistérios da alegria, que são as passagens da infância de Cristo. O último deles é a perda e reencontro do menino Jesus, no Templo de Jerusalém. Sempre que medito sobre essa passagem, peço a Deus que também me dê a alegria do reencontro. É esse o presente que ousaria pedir hoje: o reencontro de tudo aquilo que mais amo.
Passando estes dias longe de minha família e de minha cidade, sonho com a hora do reencontro: abraçar Rosângela, brincar com o Pedro, rezar no Santuário de Schoenstatt, explorar as prateleiras da Biblioteca Pública e dos sebos, caminhar na rua de minha santa, assistir ao poente da varanda do Seu Lourenço, ver o dia nascer lá para os lados do aeroporto, conversar com os amigos na Toca do Bode, viajar pelos clássicos no Clube do Livro, ir outra vez ao Ouro Verde, passar pela frente da Folha e do Centro Comercial, andar de ônibus, filosofar sobre a vida com meus amigos taxistas, encontrar os meus queridos sete leitores, passear com o Cisco. Assim eu preparo a alma para, um dia, reencontrar meu pai, e minha mãe, e meus avós, e Dom Albano, e Irmã Ângela, e Madre Lourdes, e Maria, e Jesus. Então estaremos reunidos em uma eterna festa de aniversário, tão boa quanto aquelas que Paulo e Aracy preparavam para nós, na infância, quando a velha fruteira já existia e sabia que o amor é o maior presente do universo.
Sozinho, junto com a minha fruteira, eu canto na casa vazia: Parabéns pra vocês, que me fazem feliz.
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