Imagem ilustrativa da imagem Para tão longo amor tão curta a vida
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Em 1988, depois de uma pífia tentativa de cursar Filosofia na USP, fui aprovado em dois vestibulares: Letras na Unicamp e Jornalismo na UEL. Àquela época, eu já conhecia e amava Londrina, mas confesso que fiquei em dúvida entre os dois cursos. Cheguei a viajar para Campinas e efetuar minha matrícula, mas alguma coisa dizia que meu futuro não estava lá. A diferença entre as duas cidades — especialmente no momento da chegada — era gigantesca. Assim que pus os pés na Rodoviária de Londrina, senti que meu destino estava inevitavelmente ligado a este lugar.

Graças a Deus eu escolhi Londrina, pois do contrário eu não conheceria você, Rosângela. Hoje, no dia do seu aniversário, eu penso que naquele dia, na verdade, não estava simplesmente escolhendo uma cidade, mas sim uma vida. E uma vida na qual você ocupa uma posição central.

Lembro-me claramente de você no primeiro dia de aula. Era uma chuvosa manhã de verão. Eu vestia minha camisa preferida — de mangas curtas, quadriculada, verde e azul. No bolso, levava um comprimido de aspirina (tinha tomado muita cerveja na noite anterior). Desci no ponto de ônibus errado, tive que percorrer quase todo o campus para chegar até a sala da nossa primeira aula. Todo molhado e com aquela camisa de gosto duvidoso, acho que não causei boa impressão em você. Teria que esperar 14 anos até que nossos caminhos se juntassem; os mesmos 14 anos em que Jacó esperou Raquel.

"Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia."

De fato, eu precisava melhorar muito — e me esforçar além da conta — para merecer você. Só o tempo seria capaz de me dar esse presente.

Hoje percebo que encontrei em você algumas das principais qualidades que encontrei em Londrina: é como se a mulher amada e a cidade amada fossem reflexo uma da outra. Ambas são belas, de uma beleza elegante que me comove. Ambas são acolhedoras, quando tratadas com respeito e carinho. Ambas possuem uma personalidade forte, que não silencia nem se dobra diante da injustiça. Ambas deram frutos de amor e esperança: Londrina, o seu povo; você, o nosso filho.

Quando escrevi um monólogo sobre a fundação de Londrina, a pedido do meu saudoso amigo Paulo Braz, fiz questão de incluir no centro da peça uma canção de Robert Schumann sobre um poema de Nikolaus Lenau: "Meine Rose", Minha Rosa. Sempre que ouço essa canção, agradeço a Deus por você ter florescido em minha vida. E mais uma vez volto ao poema de Camões sobre os 14 anos de espera de Jacó:

"Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida,
começa de servir outros sete anos,
dizendo: ‘Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida’."

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