Pai-Nosso subversivo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de janeiro de 2018
por Paulo Briguet 

Para o mundo de hoje, rezar o Pai-Nosso se tornou quase um ato de subversão. Frequentemente, quando alguém se propõe a repetir em público as palavras que Jesus nos ensinou, aparece algum militante do "Estado laico" para dizer que não pode. Ora, o conceito de laicismo foi criado para proteger a fé das pessoas contra a imposição dos governos, e não o oposto, como se alardeia...
Por que tanta implicância com o Pai-Nosso? Desconfio que a resposta está na atordoante simplicidade de uma oração universal que atravessou dois mil anos, educou gerações após gerações e transfigurou-se em todos os idiomas da humanidade.
"Os reis não gostam dos profetas", escreveu Otto Maria Carpeaux em memorável ensaio publicado há 75 anos. Por "reis", entenda-se todo aquele se julga dono do mundo, cargo atualmente ocupado pelos justiceiros sociais. A oração do Pai-Nosso transforma cada ser humano que a pronuncia, por alguns instantes, em um pequeno profeta. E isso os donos do mundo não podem aceitar. Quem reza o Pai-Nosso não pede um "mundo melhor". Pede um novo mundo, um outro mundo, muito além de revoluções materiais.
O Pai-Nosso é um poema politicamente incorreto: a oração que não passa para um mundo que passa. Começa por afirmar a presença de um Pai disposto a nos socorrer e consolar com sua mera presença; avança dizendo que esse Pai tem um nome, ou seja, é uma pessoa, não uma ideia ou doutrina ou produto da mente; sem o menor constrangimento, informa que esse Pai tem até um endereço, o Céu; ousa declarar que esse Pai quer alguma coisa de nós que talvez não seja exatamente o que nós imaginamos como felicidade.
O Pai-Nosso também é uma oração de agradecimento (não de reclamação ou exigência) pelo pão que foi colocado à mesa de nossa casa ou de nossa alma; do perdão que jamais existe sem a verdade e da verdade que jamais existe sem o perdão; da tentação (ou seja, do teste) que certamente virá; de uma pequena Arca de Noé que nos proteja contra o dilúvio do mal.
Meu único plano para este ano, e para qualquer tempo que vier, é realizar a oração do Pai-Nosso. Sei que por isso serei visto, na melhor das hipóteses, como um carola meio tonto, e na pior, como um perigoso monstro reacionário. Quer saber? Não dou a mínima. Continuarei rezando e realizando o Pai-Nosso não apenas com palavras, mas com pensamentos e ações. Porque nada pode superar a alegria de ser filho deste Pai.
Em 1976, quando terminou a guerra do Vietnã, o governo comunista do país asiático prendeu padres católicos. Um dos "perigosos contrarrevolucionários" detidos era o Cardeal François Van Thuan (1928-2002), que passaria nove anos em isolamento e quatro anos em um "campo de reeducação". Quando estava doente, na cela, Van Thuan só tinha forças para dizer: "Pai Nosso..." e mais algumas palavras.
Um dia, as pessoas começarão a ser presas por meramente rezar o Pai-Nosso. Quando essa hora chegar, lembre-se do cardeal prisioneiro e reze como se fosse a última vez. Não há mal que resista para sempre à oração de um profeta mesmo um profeta miserável feito eu ou você...


