Pai, a palavra-oração

Nos 13 anos em que passou preso nos cárceres do Vietnã, muitas vezes o cardeal François Van Thuan só tinha forças para dizer uma palavra:
Pai...
Às vezes, Van Thuan conseguia celebrar a Eucaristia com duas gotas de vinho e uma lasca de pão. No livro "Testemunhas da Esperança", o arcebispo vietnamita conta que os nove primeiros anos de prisão, em total isolamento, foram os mais difíceis:
Era uma tortura mental, no vazio absoluto, sem trabalho, caminhando dentro da cela desde a manhã às nove e meia da noite para não ser destruído pela artrose, no limite da loucura.
Mas a sempre havia a possibilidade de fazer aquela oração de uma só palavra, tão exígua quanto uma gota de vinho ou uma lasca de pão:
Pai...
Podemos dizer que essa oração ajudou a salvar Van Thuan. Todos os dias ele esperava ser libertado; o que afinal acabou acontecendo, em 1989. Suas preces, mesmo aquelas que só tinham uma palavra, foram ouvidas. Pois esse vinho, esse pão e essa palavra são nada menos que a salvação do mundo.
Há uma força misteriosa e incomensurável na palavra que abre a oração que o Senhor nos ensinou. No livro "Sobre o Sermão do Senhor na Montanha", Santo Agostinho afirma:
"Disseram-se muitas coisas em louvor de Deus, as quais, profusamente e extensamente esparzidas por todas as Santas Escrituras, qualquer pessoa pode ler e meditar; mas nestas não se encontra um só lugar em que se ordene ao povo de Israel que diga Pai nosso ou que ore a Deus Pai".
Esse presente dos céus poder chamar ao próprio Deus de Pai é a primeira e, talvez, a maior alegria do Pai-Nosso. Quando iniciamos a oração ensinada por Jesus, temos a plena certeza de que não estamos sozinhos no universo. Há um Pai, uma Pessoa que nos vê, escuta e conhece mais do que nós mesmos. Uma Pessoa que não nos abandonará, porque sua promessa é a ressurreição.
Santo Agostinho afirma que apenas o fato de nos permitir chamar a Deus de Pai já pressupõe que os nossos pedidos, se feitos com sinceridade, serão atendidos. Se Deus foi tão generoso a ponto de nos adotar como filhos, o que deixaria de fazer pelo nosso bem? É o que diz o próprio Jesus no Evangelho de São Mateus: "Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate, abrir-se-á. Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? E, se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente?"
A própria criação do homem, por meio do Verbo, foi um ato de misericórdia. Primeiro, porque nos retirou do mais triste e desolador dos estados: o da não-existência. Ao criar o ser humano, Deus estava perfeitamente cônscio de que sua criatura viria a lhe causar profundíssima dor. Mas, sem essa dor, não existiria o perdão, que é a lei geral do universo.
A dor de Deus! É possível imaginar semelhante grandeza? Como irá homem compreender a extensão da generosidade de um Criador onipotente que abre mão de Sua invulnerabilidade por amor à criatura?
Diante de um enigma tão atordoante, resta apenas a oração. Em casa, no trabalho, na rua, no sonho, no silêncio, na alegria, na tristeza e na igreja, ousamos dizer aquela palavra que salvou o cardeal Van Thuan e salvará a humanidade inteira:
Pai...
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