Óculos de John Lennon
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de março de 2018
por Paulo Briguet 

Era domingo e na segunda-feira tinha prova de semiologia. Vou confessar aqui a vocês: nunca entendi patavina de semiologia. Teoria de comunicação era, sempre foi e continuará sendo húngaro pra mim. A única coisa que eu consigo me lembrar de Saussure (pronuncia-se Sossur, com sotaque londrinense) é que o signo é um negócio composto por significante e significado, algo assim como o corpo e a alma da palavra. Mas na época estamos falando em 1990 , eu nem acreditava na existência da alma...
O fato é que tinha prova de semiologia e eu não sabia nada. Nem havia aberto o livro do Saussure (cumé que era o título mesmo?). Na minha cabeceira, havia um bom livro do Henry Miller e talvez alguma porcaria do Trotsky. Nem sombra do Saussure.
Na sexta-feira, França havia combinado de vir domingo à República para estudarmos semiologia juntos. França era meu grande amigo e colega de turma; ao contrário de mim, muito inteligente, mas igualmente avesso à semiologia. Ele morava longe, na zona sul; a República, como vocês sete sabem, ficava na primeira pracinha da Rua Humaitá.
Por ser um domingo, havia poucos ônibus circulando. Chegavam a demorar mais de uma hora para chegar ao ponto. França teve que pegar o ônibus lá da zona sul até o terminal urbano (uma hora); depois, do terminal até a República (mais uma hora). E tudo isso num calor dos infernos.
Naquele domingo eu acordei por volta das dez horas. Fiquei folheando meu Henry Miller, sem dar a mínima pro Seu Sossur. Lá pelo meio-dia e meia quando eu estava num daqueles monólogos delirantes de "Nexus" , Turco Baixaria descobriu que havia sobrado uma garrafa de cachaça do último churrasco. Achei que tomar um golinho não ia atrapalhar em nada meu estudo de semiologia com o França. Talvez até facilitasse.
Lá pelas três da tarde, eu e Turco Baixaria estávamos cantando trilhas de novelas antigas com voz do Silvio Santos na sala quando eu vi que alguém me observava da janela da varanda. Era o França; tinha nas mãos o livro do Saussure. (Agora lembrei o título: "Curso de Lingüística Geral".)
Eu havia colocado uns óculos de lentes redondas oclinhos do John Lennon para disfarçar meu olhar que, se em condições normais já é de peixe morto, imagine naquelas circunstâncias. A garrafa de cachaça estava quase seca.
Quando França me viu com os oclinhos de John Lennon, eu me limitei a dizer:
Acho que amanhã não vou ter condições de fazer essa prova...
Ele deu meia-volta e, com uma raiva que nunca havia sentido na vida, voltou pra casa devorando o livro de Saussure; praticamente decorou o tal "Curso de Lingüística". Ele tirou dez na prova; eu fiz segunda chamada.
Anos depois, eu e França demos muita risada lembrando aquele domingo. Mas permaneceram dois mistérios: 1) Como é que eu consegui me formar?; e 2) Que fim levaram os óculos do John Lennon?
Saudade, França.


