Imagem ilustrativa da imagem OBRIGADO, DOM ALBANO



Deus acaba de chamar de volta para Sua Casa o arcebispo emérito de Londrina, D. Albano Bortoletto Cavallin. Ele estava com 86 anos de idade e não resistiu a uma cirurgia cardíaca na tarde desta terça-feira.

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Antes de dormir, as crianças sempre pedem: "Me conta uma história". O desejo infantil expressa algo de universal e profundamente arraigado na natureza humana. Contar histórias, desde os tempos imemoriais, é uma forma de explicar o mundo e tornar a verdade inteligível. Não foi por acaso que Jesus Cristo baseou grande parte de sua pregação nas narrativas conhecidas como parábolas. Quem não se lembra das histórias do Filho Pródigo, do Bom Samaritano, do Semeador e tantas outras? São contos que ensinam, consolam, aconselham e orientam.

O arcebispo emérito de Londrina, Dom Albano Bortoletto Cavallin, é um imitador de Cristo – e conhece bem a necessidade humana de ouvir narrativas. Aos 62 anos de sacerdócio, ele se notabiliza até hoje por pregar o Evangelho contando pequenas histórias, a tal ponto que a sua biografia, assinada pelo jornalista londrinense Bruno Maffi, traz essa referência no título: "Dom Albano – O bispo catequista e contador de historinhas".

Maffi teve a feliz ideia de organizar o texto biográfico através de narrativas breves que, juntas, tecem um panorama da vida deste religioso. Em alguns momentos, na leitura, chegamos a ouvir o calmo e caloroso tom de voz do religioso tão querido em todos os lugares por onde passou.

Aquela que vem do céu

Por isso eu peço: – Me conte uma história, Dom Albano. Conte-me como foi nascer na pequena Lapa, perto daquele poço abandonado em que uma menina de sua família foi milagrosamente salva. Diz-me, padre, como é a igreja que foi erguida no mesmo lugar do antigo poço.

Conte-me como eram seus pais, seu Pedro e dona Celestina. Imagino que Celestina – aquela que vem do céu – ficou com lágrimas nos olhos quando viu o filho de apenas dez anos partir rumo ao Seminário Menor São José, em Curitiba. As mesmas lágrimas ela deve ter derramado quando assistiu à primeira missa do filho, ordenado aos 23 anos, após completar os estudos no Seminário Maior do Ipiranga, em São Paulo.

Dom Albano, me conte como foi ser vigário da Catedral e pároco da Igreja Santa Teresinha, em Curitiba. Dizem que lá o sr. chegou a celebrar nove casamentos em apenas um sábado! E como foi aquele dia em que subiu 20 metros só para ver os ninhos de passarinho no campanário?

Conte-me sobre os jovens que se afastavam da Igreja após leituras de Sartre e dos existencialistas. Sobre as pessoas que o sr. ajudou na época da ditadura militar, quando atuava na Pastoral Carcerária. Sobre os padres que começaram a perder a fé, trocando-a pela militância política e partidária, influenciados pela Teologia da Libertação. E, por falar em TL, fale-me sobre o seu encontro com o papa João Paulo II, que tão tenazmente combateu os revolucionários dentro da Igreja.

Com apenas 43 anos, o sr. se tornou bispo auxiliar na Arquidiocese de Curitiba. Naquele 26 de agosto de 1973, o sr. ouviu os conselhos de Dom Geraldo Fernandes, primeiro arcebispo de Londrina, consignados em verbos imperativos: Ama, ora, cala, perdoa, sofre, persevera. Tão fortes essas palavras, Dom Albano. Tão proféticas.

Escuridão e esperança

Conte-me, Dom Albano, como foram as noites escuras de sua alma – porque sem cruz e escuridão não existe santidade possível. Fale sobre a depressão que o acometeu ao final do seu período em Curitiba – e sobre o novo caminho antevisto ao subir a Serra da Esperança, para ser arcebispo de Guarapuava.

Como foi aquele período, marcado pelos conflitos entre fazendeiros e camponeses, na disputa pela terra? Diga-me quais foram as dificuldades para conciliar interesses antagônicos, dentro de um clima radicalizado.

Dom Albano, fale sobre a sensação de deixar Guarapuava e assumir a Arquidiocese de Londrina, em 1992. Aqui o sr. encontrou uma nova cidade natal, tornando-se um autêntico bispo pé-vermelho. Em Londrina, o sr. trabalhou com afinco para reerguer a "Catedral do Ar" – a Rádio Alvorada – e realizou uma complexa semeadura missionária, cujos frutos estão sendo colhidos até hoje. Também atuou para concretizar um sonho: o campus da PUC londrinense.

Conte-me, Dom Albano, sobre o seu amor por essa terra vermelha, fértil e acolhedora. Sobre a gente combativa e calorosa que encontrou por aqui. Sobre os amigos que fez desde o momento em que colocou os pés na Arquidiocese e abriu o Sacrário, revelando a todos que ali estava o maior tesouro da Igreja: o Cristo Eucarístico.

Lembra-se, Dom Albano, do dia em que o sr. entrou na sala do Tribunal do Júri, no Fórum de Londrina, para dar seu apoio ao movimento Pé Vermelho Mãos Limpas? Naquele momento, eu tive a certeza de que a corrupção na Prefeitura seria derrotada. E o sr. pronunciou uma frase memorável: "Nem toda a água do Igapó é suficiente para lavar Londrina".

Em 2005, ao completar 75 anos, o sr. apresentou sua renúncia ao papa Bento XVI, conforme determina o Código Canônico. Mas fez questão de continuar morando na cidade que o adotou. Hoje, o sr. nos dá a honra de ser arcebispo emérito de Londrina. Com uma energia inacreditável, celebra missas, faz palestras e percorre toda a Arquidiocese levando alegria e reflexão para a comunidade católica. De uma coisa, podemos estar certos: o sr. está rezando por nós. Da mesma forma que Bento XVI, hoje papa emérito.

Saudade do Céu

Termino essa conversa em forma de texto relatando um episódio pessoal. Em 2007, assisti a uma palestra de Dom Albano na Paróquia São Vicente de Paulo. Ele discorreu sobre a tendência humana a jamais se contentar com nada – e observou: "Esse descontentamento permanente, na verdade, é a saudade do Céu". Imediatamente eu me lembrei dos versos de Camões: "Não é logo a saudade / das terras onde nasceu / a carne, mas é do Céu, / daquela santa cidade, / donde esta alma descendeu".

No dia seguinte à palestra de Dom Albano, uma tragédia ocorreu – e eu tive um dos dias mais tristes da minha vida. As palavras do velho arcebispo – e sua menção à saudade do Céu – foram as minhas fontes de consolação e esperança naquela noite escura. Hoje, ao ler o belo livro de Bruno Maffi, eu descubro que o pai de Dom Albano tem o mesmo nome do meu filho: Pedro. E ele sempre me pede para contar uma história antes de dormir.

Obrigado, Dom Albano.

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