O Último Natal
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de dezembro de 2016
por Paulo Briguet 

Francisco teria dito, em solenidade no Vaticano, que este seria o último Natal. Fui checar a informação e na verdade não foi bem o que ele disse. O papa afirmou (não agora, mas em 2015) que aquele poderia ser o último Natal para muitos que estivessem celebrando a festa, sobretudo para os cristãos perseguidos.
Se pensarmos bem, todo Natal pode ser o último. Um dos tesouros mais preciosos que guardo comigo é a lembrança dos Natais em família ao longo destes 46 anos. Fecho os olhos e faço uma viagem no tempo, recordando as festas em São Paulo, Araçatuba, Agudos, Atibaia, Bauru, Londrina...
Já pensei em escrever um livro, em que cada capítulo seria um Natal, descrevendo a mudança no rosto das pessoas, as personagens que entram e saem de cena, as conversas, as músicas, as piadas, as mesas, as alegrias, as dores, as orações. Há uma vida inteira dentro de cada 25 de dezembro. O título do livro eu já tenho: "O Último Natal".
Houve um Natal em Araçatuba (nunca me esquecerei deste endereço: Rua Castro Alves, número 15) em que me escondi debaixo da cama do Vô Briguet achando que o mundo ia acabar. Um motorista, provavelmente bêbado, batera o carro contra um poste na esquina, fazendo um enorme estrondo e provocando um curto-circuito na rua. Felizmente, o mundo não acabou, nem mesmo para o motorista, que teve ferimentos leves. Acho que só foi o fim mesmo para o Fusquinha que ele dirigia. (Vi tudo isso depois que Vô Briguet me tirou debaixo da cama, avisando que estava tudo bem.)
O ideal é celebrar todo Natal como se fosse um último: um dia você acerta. Pelo que se vê na Divina Comédia, imagino que o Céu é um Natal e uma Páscoa simultâneos, com Jesus nascendo e renascendo a cada instante. Se o mundo parece desabar à nossa volta, como vem acontecendo nos últimos dias, lembre-se de que há uma festa esperando por você logo ali na esquina. Não é o Fusquinha: é a eternidade.
Estive relendo o livro de memórias "Filho da Revolução Minha infância na Cuba de Fidel Castro", do escritor cubano Luis Manuel Garcia. Uma das passagens mais comoventes é aquela em que Fidel anuncia pela TV, em 1970, o cancelamento do Natal. "Eu e meus amigos não conseguimos entender, mas é a pura verdade. Vimos com nossos próprios olhos: Fidel fez um discurso em Havana e anunciou que, por causa da safra de dez milhões de toneladas, precisaremos fazer um pequeno sacrifício e adiar as festas de Natal. Este ano não haverá Nochebuena. Fidel alega que Cuba não é mais um país religioso e não faz sentido comemorar uma festa importada da Europa há gerações". (Bom, nem preciso dizer que a tal "safra das dez toneladas" foi um fracasso.)
Na verdade, não sabemos exatamente em que data Jesus nasceu. Mas acho que 25 de dezembro é uma escolha perfeita: uma semana antes do novo ano, um dia antes da eternidade. Se o mundo estiver desabando à nossa volta, há uma rocha em que podemos nos segurar. E essa rocha não pesa mais que a mão de uma criança.
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