O sr. não tem a mínima chance
Há exatamente 60 anos, um jovem do interior chegou à cidade de São Paulo. Arranjou emprego de auxiliar de escritório; morava em pensionato. Com a ajuda financeira das irmãs mais velhas, o rapaz queria realizar um sonho: estudar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.
Quase imberbe, o rapaz era bastante magro, tinha pele morena e olhos verdes. A tez escura vinha dos ancestrais espanhóis, habitantes de Múrcia, uma região da Espanha invadida pelo deserto, onde existe um grande lago de água salgada chamado Mar Menor. O pai, Antonio, nascido em Múrcia, morrera três anos antes. Um dia antes do aniversário de São Paulo, o rapaz havia completado 19.
No final de uma tarde de fevereiro, o moço saiu do trabalho e fez uma caminhada no centro da cidade. Ouvira falar na existência de um curso pré-vestibular para o exame da São Francisco. Chegando à sede do curso, praticamente vazia naquela hora, foi recebido por uma secretária de cabelo preso e óculos de aro branco.
— Eu queria falar com o responsável pelo curso.
— A quem devo anunciar?
O rapaz disse seu nome.
— De onde?
— De Mirandópolis.
Mirandópolis! Que nome estranho. A moça reprimiu o riso, mas, depois de alguns minutos, o rapaz foi recebido por um homem sorridente e totalmente careca, de olhos fundos e negros.
— Em que posso ajudá-lo?
— Eu me formei no curso clássico. Cheguei do interior há uma semana, trabalho em escritório e quero prestar o exame do Largo de São Francisco.
— A mensalidade de nosso curso é alta. Quem vai financiar os seus estudos, filho?
— Eu conto com a ajuda de minhas irmãs.
O homem parou, pensou e sorriu. Disse, enfim:
— Serei franco. Não vamos desperdiçar o seu tempo e o meu tempo. Acho que o sr. não tem a mínima chance de ser aprovado.
O rapaz parou e pensou. Disse:
— Está certo. Mas o sr. pode me dar as apostilas?
— Meu jovem, por quê?
— Para eu estudar sozinho.
Um ano depois, o rapaz voltou ao cursinho. A secretária deixou-o entrar na sala do diretor.
— Em que posso ajudá-lo? — o homem perguntou.
— Nada. Só vim devolver as apostilas.
— Como assim, meu jovem?
— Eu sou aquele rapaz do interior que jamais iria ser aprovado no Largo São Francisco.
O diretor ficou mudo.
— Pois é. Eu passei.
Esse jovem era meu pai. Na foto, é o soldado mais baixo, o primeiro à esquerda





