Imagem ilustrativa da imagem O sonho da Independência
| Foto: Reprodução
Retrato de José Bonifácio, do pintor Benedito Calixto (1902)



Não sei se vocês sete sabem, mas o autor do lema "Independência ou Morte" não é D. Pedro I. Quem criou a frase foi o estadista José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), fundador do Brasil e um dos maiores brasileiros de que se teve notícia até hoje, se não o maior.
Aquele brado retumbante que D. Pedro lançou às margens do Rio Ipiranga e cantamos em nosso hino era, na verdade, a contrassenha da organização cívica criada por José Bonifácio para moldar a fundação da pátria brasileira. Não fosse o mais eminente dos Andradas, não existiríamos hoje como nacionalidade. Voltar ao sonho de José Bonifácio é a nossa tarefa mais urgente, agora que declaramos independência da organização criminosa que nos governou nos últimos anos. Como disse o grande sociólogo e escritor Gilberto Freyre, o Dia da Independência deveria ser o Dia de José Bonifácio.
O Brasil sonhado por José Bonifácio era um Brasil de respeito, cultura e prosperidade. Era um Brasil de todos os povos, um Brasil sábio e corajoso, livre dos jugos da escravidão, da corrupção e da demagogia. Era um Brasil de paz, sem dúvida, mas uma paz de homens livres, não de idiotas úteis submissos a uma ideologia ou grupo político. Antes a guerra de homens justos do que uma paz de escravos.
Vez por quando, o Brasil sonhado por José Bonifácio dá mostras de existir em potência dentro de nossos corações: foi assim nas manifestações populares de março de 2015 e março de 2016, quando milhões de brasileiros foram às ruas com suas famílias e exerceram o pleno direito de cidadania sem quebrar uma vidraça, sem agredir um trabalhador policial, sem depredar um patrimônio, sem desrespeitar uma lei. Esse é o Brasil que o Patriarca da Independência amou até a morte: um país de fé, esperança e amor. Naquele momento, milhões de brasileiros não sabiam, mas estavam honrando o legado de Andrada, que ao morrer deixou poucos bens, excetuando uma biblioteca de seis mil volumes e uma vida inteira de heroísmo e sacrifício.
Estadista, poeta, ecologista avant la lettre, soldado quando as circunstâncias assim o exigiam, tutor do menino D. Pedro II (a quem chamava de "meu filho e meu imperador"), esse gigante brasileiro hoje está praticamente esquecido em nossas escolas e universidades. Há 51 anos, Gilberto Freyre já denunciava a terrível lacuna: "Houvesse educação cívica no Brasil de hoje, e o culto a José Bonifácio seria o maior culto nacional".
O que é tão importante na vida que faria você enfrentar até a morte? Sua família, seu país, seu trabalho, sua casa, sua memória, sua honra, sua alma. Pois mora aí o sentido pleno do grito "Independência ou Morte": a defesa e conservação daquilo que mais amamos, dos valores fundamentais. Independência não é uma simples categoria político-ideológica, é um sentido para a vida!
Nesta imensa catedral inconclusa chamada Brasil, recordemos a vida terrena de José Bonifácio para chegarmos um pouco mais perto da vida eterna. Vamos sonhar o sonho de Andrada.

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