O socialismo sempre quer um cadáver
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sábado, 26 de janeiro de 2019
Paulo Briguet 
Em 1º de dezembro de 1934, o líder soviético Sergei Kirov foi morto com um tiro na nuca no Instituto Smolny, em Leningrado. É um fato simbólico e curioso que o assassinato tenha ocorrido no mesmo local (uma antiga escola para moças nobres) que fora usado como quartel-general pelos comunistas durante o golpe de Estado em 1917. Essas coisas, definitivamente, não ocorrem por acaso.
Kirov era apontado como o mais provável sucessor de Josef Stálin, de quem era amigo íntimo. No entanto, poucos dias antes, no 17º Congresso do Partido Comunista, Stálin e Kirov haviam discutido asperamente sobre a fome entre os camponeses. E o ditador jamais esquecia uma divergência.
O assassino confesso de Kirov, Leonid Nikolaev, foi preso imediatamente. Mas a morte de Kirov tornou-se o estopim para um dos mais sangrentos episódios já registrados na história da humanidade: o Grande Terror. Para se ter uma ideia do que aconteceu no período 1935-38, basta dizer que praticamente nenhuma família russa ficou imune às perseguições, prisões, torturas e fuzilamentos promovidos pelo regime. Todos os cidadãos soviéticos, comunistas ou não, eram considerados suspeitos. Stálin não poupou nem mesmo familiares próximos e velhos companheiros de militância. Para quem quiser conhecer melhor essa história, indico dois livros, um relato ficcional e um relato histórico: o romance "O Caso do Camarada Tulaev", do escritor belga (e comunista) Victor Serge, e a aterrorizante obra-prima "Sussurros", do historiador inglês Orlando Figes.
O que aconteceu naquele período assemelha-se a outros episódios da história moderna, como o Terror da Revolução Francesa (1793-94), o Grande Salto para Frente na China (1958-60) e a ascensão do Khmer Vermelho no Camboja (1975). A técnica do amálgama (ou enquadramento), desenvolvida pelos comunistas russos, foi largamente utilizada para condenar milhões de pessoas à morte. O amálgama consiste em atacar um indivíduo ou uma família com uma quantidade enorme de acusações mentirosas, tornando impossível a defesa. Qualquer fato vinculado à pessoa (uma amizade, uma relação de trabalho, uma simples conversa pessoal) vira motivo para enquadrá-la como inimigo do povo.
Quem mais se beneficia desse estado de coisas é o verdadeiro criminoso: afinal, onde todos são culpados, ninguém é culpado. Onde tudo vira crime, nada é crime.
Não é por acaso que o socialismo sempre necessita de um cadáver para iniciar o morticínio de milhões. Na Revolução Russa, o cadáver foi o do czar. No Grande Terror, o de Kirov. Na era petista, o de Celso Daniel. No Brasil atual, alguns queriam que esse cadáver fosse o de Jair Bolsonaro. Como isso não foi possível, utilizam o de Marielle Franco. E, a partir da vereadora morta, o nosso Kirov, fazem todos os tipos de amálgamas e enquadramentos. Amanhã o alvo pode ser você.
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