O retiro dos goleiros eternos
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
Paulo Briguet 
"Nome."
"Gordon Banks."
"Idade de falecimento."
"81 anos."
"Local de nascimento."
"Sheffield, Inglaterra."
São Pedro coçou a cabeça e soltou uma risada.
"Desculpe, Gordon. São apenas formalidades. Eu sei quem você é, sou teu fã de carteirinha. Agora me conta, rapaz: como conseguiu defender aquela cabeçada do Pelé?"
Pela milionésima vez, o goleiro inglês descreveu o famoso lance da Copa de 70.
"Pois é, meu amigo. Graças a essa defesa, você ganhou a eternidade. Ordens do Chefe."
"Obrigado!"
"Agora eu vou te apresentar ao Miguel, seu colega. Ele é o nosso guardião aqui em cima."
A essas palavras, São Miguel Arcanjo aproximou-se, batendo as suas asas fulgurantes. Tomou Gordon pelo braço e o conduziu até um campo celestial. No caminho, o Arcanjo disse:
"Quando eu defendi o Reino dos Céus, usei minha espada. Mas você, Gordon, só precisou usar as mãos."
Entraram numa pequena área e aproximaram-se da linha do fundo. Ali encontraram um homem alto, magro e sorridente.
"Meu nome é Gilmar. Estivemos juntos em algumas Copas, Gordon. Sabe o autor cabeçada que você defendeu? Doze anos antes, ele era apenas um menino, e chorou de alegria nos meus braços, quando ganhamos a final na Suécia."
"Nós ganhamos em 66, Gilmar. Mas até hoje ficamos só nisso..."
Mais adiante, encostado numa trave esquerda, eles viram outro homem, que disse:
"Todos se lembram de você por aquela defesa, mas eu sou lembrado até hoje pelo gol que tomei do Ghiggia no Maracanã. A nossa posição é muito ingrata, Gordon. Onde a gente fica nem a grama cresce! Felizmente, Deus me consolou e hoje estou em paz."
Miguel e Gordon continuaram caminhando. Chegaram a um local onde viram um homem vestido de preto, ao lado de dois garotos, perto de um gol.
"Olá, Gordon? Está lembrado de mim? A música clássica teve Bach e Beethoven; a literatura russa teve Tolstói e Dostoievski; e o futebol teve Yashin e Gordon Banks. Toca aqui, meu camarada."
Os goleiros trocaram um caloroso aperto de mãos. Conversaram por algum tempo, contando suas aventuras. De repente, Yashin virou-se para o colega e mostrou os dois garotos que esperavam sob a meta:
"Está vendo aqueles dois meninos? Em 1965, eu passei alguns dias no Rio de Janeiro, e treinei os goleiros das categorias de base do Flamengo. Esses jovens vieram de lá, acabaram de chegar. Foi bom você ter vindo, eu estava precisando de uma ajuda."
E assim Lev Yashin e Gordon Banks começaram a treinar Christian Esmério e Bernardo Pisetta, os jovens guardiões do Ninho do Urubu.
Lá no alto, Deus sorriu.
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