Imagem ilustrativa da imagem O pão, o leite e o jornal
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A morte de duas pessoas muito diferentes entre si — um bispo da Igreja e a mulher de um político — me fez pensar na misericórdia de Deus. Quem somos nós para sequer imaginá-la? Deus julga e perdoa muito além das medidas da inteligência humana. Sua misericórdia está nos milagres dos santos, nas grandezas do universo, nas obras-primas dos gênios, na harmonia indomável da natureza, mas, por nós mortais comuns, pedestres, angustiados, pequenos, fracos, temerosos, hesitantes, pecadores, pode ser vislumbrada quase que exclusivamente nos pequenos acontecimentos do nosso irmão chamado Todo Dia.

Há uma inconsútil misericórdia no pão que como, no leite que bebo e no jornal que leio todas as manhãs. Saber que esses três presentes de Deus nunca me faltaram é motivo de uma sincera e funda gratidão.

O jornal, para o meu pai, era como se fosse o pão de cada dia. Se ele não lia o jornal de manhã, era como se o dia não tivesse começado, como se o Sol tivesse resolvido não aparecer no Leste. Talvez por isso eu tenha escolhido a profissão de jornalista: só assim posso alimentar a ilusão de estar sendo lido por meu pai agora. Esta crônica é como se eu e ele voltássemos a conversar.

De manhã, na hora do café, minha mãe e minha avó seguiam sempre o mesmo ritual: tiravam o miolo do pão antes de passar a manteiga. Nunca entendi porque elas rejeitavam aquela que no meu entendimento de criança era a melhor parte do pão, mas o fato é que o miolo quase sempre ficava para mim. Não por coincidência, casei com uma mulher que tem o mesmo hábito! De manhã, quando a Rosângela tira o miolo do pão e oferece a mim e ao Pedro, parece que Aracy e Maria estão de volta, com um sorriso ao nosso lado, um sorriso de amor e gratidão.

E o leite, o leite com Nescau? Quando eu era bem pequeno — com três ou quatro anos —, assim que Aracy se aproximava com a caneca de leite achocolatado fumegante nas mãos, eu dava um pulo com os braços e as pernas em forma de estrela e emitia com a boca um som característico que tentava imitar o ruído de um choque elétrico. Aquele era um momento de pura felicidade: —Prrrrriii! Lembro-me vagamente que copiei essa reação de um desenho animado do Pato Donald. (Donald, por sua vez, me faz pensar na musiquinha que tocava antes dos desenhos: "Não existe nada mais antigo/ Do que cowboy que dá cem tiros de uma vez/ A vó da gente deve ter saudade/ do King Kong, do cinto de inutilidades...)

Mais tarde, em 1983, já morando em Araçatuba, durante as aulas no Colégio Nossa Senhora Aparecida, eu sentia o delicioso cheiro de café que vinha de uma torrefadora vizinha à escola, o mesmo aroma que sentimos ao passar em certo trecho da Avenida Tiradentes. Aquilo também era uma saudade antecipada de Londrina, mais um fruto da misericórdia de Deus — exatamente como o pão, o leite e o jornal de Todo Dia.

A alegria das pequenas coisas cria em meu coração a certeza de que a morte será vencida. Obrigado, Senhor, por hoje poder dizer isso no jornal.

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