Em meus quase 25 anos de jornalismo, aprendi uma coisa: nos grandes acontecimentos, sempre há um londrinense por perto. Na final olímpica do futebol, o pé-vermelho em questão foi o técnico Rogério Micale.
Antes da decisão, não resisti a um trocadilho infame:

— A Alemanha é favorita, mas espero que o Rogério Micale.

Graças a Deus, ele me calou. A final no Maracanã, palco da tragédia de 1950, começou a reabilitar a honra da Seleção Brasileira após aquele duríssimo e vergonhoso 7 a 1 no Mineirão, dois anos atrás. Cada vez mais eu me convenço de que o perdão e a ressurreição pertencem à natureza mais íntima dos acontecimentos em todo o universo. Na noite de sábado, eu pensei no goleiro Barbosa quando Weverton defendeu o último pênalti cobrado pela Alemanha.

Apesar da minha brincadeira boba, o técnico do time olímpico chamou-me a atenção desde a fase de treinamentos por sua humildade, clareza e determinação. Quando um jornalista afirmou que um dos jogadores convocados era desconhecido do grande público, Micale respondeu: "Desconhecido aqui é o técnico da seleção". Não mais, Rogério.

Sim, eu sei que Micale nasceu em Salvador. Mas a sua projeção no mundo do futebol se deu em Londrina e no Paraná. Acabou sendo escolhido para comandar o time olímpico após se destacar como treinador de categorias de base no Londrina e na Portuguesa Londrinense. E aqui também viveu parte de sua carreira como jogador: entre 1990 e 1992, foi goleiro do Tubarão.

Sempre digo que goleiro é o mais solitário e reflexivo dos personagens do futebol. E também o mais observador. A escolha de Micale para a camisa 1, Weverton, revelou-se certeira: o substituto do líder Fernando Prass, cortado por contusão, tomou apenas um gol durante o torneio olímpico. E defendeu aquele pênalti.

Hoje é segunda-feira, a Olimpíada terminou e eu gostaria de lembrar a todos que temos um país para reconstruir. O exemplo de Rogério Micale e de nossos atletas de ouro servirá de inspiração para essa missão histórica: reinventar uma nação que foi destruída por criminosos.

Muitos criticaram o gesto dos atletas apoiados pela Marinha que prestaram continência à bandeira nacional no pódio olímpico. Desculpem, mas não vejo na continência um ato político ou um sinal de desrespeito: pelo contrário, vi apenas um gesto de alegria e gratidão. A Marinha defende as nossas águas; eles defenderam a nossa honra.

É esse o país que nos precisamos construir: o país da gratidão, do trabalho sério e persistente, do enfrentamento das adversidades. Um país que converte o pênalti decisivo e depois chora de alegria. Um país do qual todos sentem saudade, acho que até aquele nadador. Um país que não sente inveja do ouro conquistado pelo homem mais rápido do mundo; pelo contrário, o adota como filho seu. Um país que agradece a Deus porque, apesar de tudo, estamos vivos e temos esperança. Um país em que o Cristo Redentor, acima de tudo e de todos, abre os braços para o mundo inteiro. Um país de ouro.

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