Imagem ilustrativa da imagem O mundo é uma bola
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Uma das partidas de futebol mais emocionantes de todos os tempos foi a final da Copa do Mundo de 1954. O jogo entre Alemanha Ocidental e Hungria passou a história como "o milagre de Berna". Liderada pelo genial craque Puskas, a Hungria era favoritíssima. Em todos os jogos que disputou naquela Copa, a Hungria havia conseguido fazer 2 a 0 logo nos primeiros minutos — inclusive na final. Para se ter uma ideia da superioridade húngara, na primeira fase do torneio o esquadrão de Puskas derrotara os próprios germânicos pelo humilhante placar de 8 a 3! Mas o impossível aconteceu: sob a chuva que caía na capital suíça, a Alemanha virou o jogo para 3 a 2 e conquistou o seu primeiro título mundial.

Ao ser entrevistado antes da final de 1954, o técnico alemão Sepp Herberger admitiu o favoritismo da Hungria, mas disse que a Alemanha poderia ser campeã. Justificou sua esperança com uma frase célebre:

— A bola é redonda.

A frase de Herberger, em sua simplicidade, contém uma grande sabedoria. Se a bola é redonda, pode ir para qualquer lado — e aí está não apenas o grande encanto do futebol, como também a graça da vida! No futebol, como na vida, nem tudo é previsível; nem sempre o melhor ganha; ninguém é campeão na véspera. Os fracos podem superar os fortes, os obstinados podem ultrapassar os geniais, os pequenos podem se tornar grandes, e o impossível acontece. Assim na vida como no campo.

A bola é redonda, mas o mundo está ficando chato. Nesta Copa, vi muita gente encarando as partidas entre as seleções não como disputas esportivas, mas como brigas ideológicas. Esse é um sintoma da politização total da vida, doença que afeta a sociedade contemporânea. Tudo que acontece dentro e fora dos gramados é rotulado como fenômeno sociopolítico: o gesto do atleta que se abraça à bandeira de seu país, a composição étnica dos times, um incidente registrado na torcida muitos anos atrás... Houve comentarista da mídia nacional tachando os croatas de nazistas porque cometeram o crime de amar o seu jovem país. Nem a beleza das torcedoras escapou incólume à sanha da militância!

Na verdade, a politização da Copa é uma bobagem completa. Alguém vai admirar menos a seleção de 1970 porque o presidente da época era o general Médici? Alguém por acaso acha que vencemos a Copa de 94 por causa do Plano Real? Alguém atribui as vitórias de 1958 e 1962 a Juscelino Kubitschek ou João Goulart? Em 2002, o presidente era FHC; alguém torceu ou deixou de torcer para o Brasil por esse motivo? E, com toda sinceridade, alguém vê a correlação entre o governo Figueiredo e aquela inesquecível seleção de 82? Ora, sinceramente...

Hoje ninguém pensa mais no "milagre de Berna" como uma disputa entre o capitalismo e o comunismo. Até porque, 35 anos depois, a Alemanha se reunificou e o regime socialista húngaro chegou ao fim.

Ah, vamos parar de ser chatos, o mundo é uma bola.

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