O momento do meu nascimento

"O último inimigo a derrotar será a morte, porque Deus a tudo sujeitou debaixo dos seus pés."
(Primeira Carta aos Coríntios, 15,26)
Mais de 80 anos se passaram, mas até hoje Maria Alice se lembra do dia em que sua mãe cortou um pão de centeio em sete pedaços e os repartiu entre os filhos. Nos primeiros tempos de Londrina, um pão de centeio era artigo raro, a ser saboreado lentamente, como um presente de Deus. Aquele pão continua sendo repartido em todas as manhãs da vida de Maria Alice.
Há 1.900 anos, um bispo da cidade de Antioquia, chamado Inácio, cuja fama de santidade havia chegado até Roma, foi aprisionado por ordem do imperador Trajano. Conduzido por dez soldados romanos para ser jogado aos leões no Coliseu, Inácio escreveu naquele ano de 106 d.C. uma carta aos cristãos em que diz: "Nada me valerão as delícias do mundo e os reinos deste século. Melhor é para mim morrer por Jesus Cristo do que reinar até as extremidades da terra. O que procuro é aquele que morreu e ressuscitou por nós. Este é o momento do meu nascimento!"
As palavras de Santo Inácio de Antioquia, mártir da Igreja, reverberam até hoje na consciência dos cristãos em todo o mundo, fortalecendo a nossa fé na imortalidade da alma.
A imortalidade é o principal assunto de "O Jardim das Aflições", documentário sobre o filósofo e escritor Olavo de Carvalho, recentemente exibido em Londrina. Numa das cenas mais emocionantes do filme, Olavo fala sobre a irrevogabilidade do tempo: cada acontecimento do universo por mínimo ou grandioso que seja, do pão de centeio repartido numa casa de madeira a um santo devorado por leões, das partículas subatômicas à dança das galáxias , ao entrar na esfera do ser, nunca mais será apagado da eternidade. O que acontece não pode "desacontecer".
Existe apenas um fato que foge a essa lei: o perdão de Deus. Só o perdão divino é capaz de apagar um acontecimento o nosso pecado da estrutura da realidade universal. Ao constatar essa exceção à irrevogabilidade do tempo, quando Deus devolve ao nada os nossos crimes e ofensas, Olavo formula uma frase perturbadora e inesquecível: "O perdão é a lei estruturante do universo".
O perdão é o momento do nosso nascimento. Para que esse milagre aconteça, basta apenas o pequeno gesto de um coração arrependido. Um mundo que desaprendeu a pedir perdão, que não aceita o arrependimento, caminha a passos largos para o inferno, para a separação irrevogável entre o homem e Deus. Foi por isso que, quando Jesus encontrou o paralítico em Cafarnaum, primeiro disse: "Teus pecados estão perdoados" e só então o fez andar. Em geral não notamos, mas o primeiro milagre é muito maior que o segundo.
Perdão é o outro nome da ressurreição. Perdoe. Ressuscite.
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