O menino do violoncelo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de julho de 2016
por Paulo Briguet 

No filme "Ensaio de Orquestra", de Federico Fellini, há uma cena inesquecível em que os diversos músicos de uma sinfônica discutem sobre as qualidades dos instrumentos musicais. Cada um dos músicos garante que o seu instrumento é o mais próximo da voz humana. Fica evidente a mensagem que o cineasta quer transmitir: a de que o trabalho humano é um prolongamento de nosso próprio ser.
Faz mais de trinta anos que assisti pela primeira vez àquele filme, mas às vezes me ponho a pensar na discussão dos músicos. No fim das contas, qual é o instrumento mais parecido com o ser humano? Nesta semana, tive uma resposta talvez não a definitiva, mas sem dúvida muito boa.
Um amigo, o maestro londrinense Roney Marczak, convidou-me para assistir a um ensaio de sua jovem orquestra. Se quisesse, Roney poderia tocar violino em qualquer orquestra do mundo até na Filarmônica de Berlim , mas decidiu ficar em Londrina para dirigir uma escola que leva a música clássica a jovens pobres.
Quem foi o bobo que disse que nada de importante acontece às terças-feiras? Sim, eu sei que fui eu. Mas foi justamente na terça-feira que o Roney me chamou para assistir o ensaio da jovem orquestra. Lá também estavam os amigos Cláudio Tedeschi e Marcelo Cassa. Gosto muito de ver ensaios musicais, da mesma forma que tenho interesse em observar a construção de outras formas artísticas, ver como trabalham o músico, o escritor, o pintor, o escultor, o teatrólogo e o cineasta em seus cotidianos. Agrada-me observar a ordem artística nascendo em meio ao aparente caos; é uma alegria contemplar a beleza que surge da terra pelas mãos humanas, numa construção de maravilhas, numa colheita de sublimidades.
A orquestra estava ensaiando o Concerto para Violoncelo do compositor austríaco Matthias Monn (1717-1750). O solista desse concerto é o jovem César Augusto. Até algum tempo atrás, o menino César trabalhava como empacotador em um supermercado. Agora, com o seu talento, ele nos convence de que o violoncelo é o instrumento musical que mais se parece com o ser humano. No concerto de Monn, que viveu apenas 33 anos (a idade de Cristo), ouvimos a voz da alegria, da melancolia, da beleza e do inesperado. A voz do milagre consubstanciado nas mãos que até outro dia faziam pacotes e agora interpretam sonhos.
E pensar que tudo isso acontece no lugar que Dom Albano chama de "a Terra Santa de Londrina" perto da Casa de Madre Leônia, do Asilo São Vicente de Paulo, da igreja e do santuário, da escola e da creche, do parquinho das crianças. Ali, no futuro centro de peregrinação da santa londrinense, um grupo de jovens músicos pratica a linguagem universal da música. No final desta terça-feira mágica, eles tocaram "Luar do Sertão", unindo violinos e violas caipiras.
Depois do ensaio, saímos para a rua e olhamos o céu noturno que inspirou Catulo da Paixão Cearense: "Não há, ó gente, oh não, luar como este do sertão..."
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