O maníaco e o depressivo no balcão do bar
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
Paulo Briguet 

O maníaco e o depressivo entram no bar. Sentam-se lado a lado. "Uma cerveja, por favor" pede o depressivo. "De que marca?", pergunta o barman. "Qualquer uma", responde o depressivo. O maníaco observa o diálogo com a mão direita erguida. Ordena: "Um Chivas com duas pedras de água de coco."
Um minuto depois, o barman volta com as bebidas. O depressivo nota que a cerveja está quente. O maníaco experimenta a dose, faz careta, cospe no chão e segura o barman pelo braço: "Esse scotch é do Paraguai, droga! E eu pedi duas pedras de gelo! Duas! Aqui tem três, nenhuma delas de água de coco!"
O barman sai. Uma bela morena de olhos injetados se aproxima. O maníaco diz, colocando a mão direita no ombro do depressivo: "Aqui tá assim de mulher. Olha essa aí." "Não é pro nosso bico", murmura o depressivo, dando mais um gole na cerveja quente.
O depressivo tem olhar de peixe morto. O maníaco tem olhar de filme de terror. Ambos observam a moça de olhar vermelho, que se afasta para o outro lado do bar. O barman volta com o Chivas e as duas pedras de gelo. O maníaco bebe e estala a língua: "Agora, sim!"
O depressivo percebe que o uísque do outro tem um aspecto estranho, viscoso. Mas apenas comenta: "Essa cerveja vai me dar dor de cabeça." O maníaco faz menção de ir ao outro lado do bar, à procura da morena, mas é retido por um comentário do depressivo: "Quando eu era moleque, aprendi duas coisas inúteis: código Morse e equação de 2ºgrau." O maníaco para e pensa. Com o copo de uísque suspenso no ar, tenta se lembrar da fórmula da equação de 2º grau. A memória não funciona, mas ele também não quer perguntar ao outro. Sente o começo de uma enxaqueca. E o Chivas está com um gosto esquisito.
"Onde é o banheiro?" o maníaco pergunta ao barman. Com um leve sorriso e um meneio de cabeça, o homem indica a posição do WC masculino. Abrindo caminho entre os clientes do bar, o maníaco vai até o local indicado. O depressivo vai logo atrás. Ambos chegam ao mictório. Enquanto se alivia, o depressivo tamborila a mão esquerda nos azulejos da parede e diz: "Aprendi código Morse, mas esqueci tudo. Só lembro como se pede SOS: três toques curtos... três toques longos... três toques curtos... três toques longos..." O maníaco pensa: "Mas não é isso que ele tá batucando no azulejo. É outra mensagem. O que ele quer dizer pra mim, esse doido?"
O depressivo sai do banheiro sem lavar as mãos. O maníaco lava-as duas vezes, com sabão; antes de sair, porém, calcula o número de azulejos: "Quinze vezes trinta... quatrocentos e cinquenta... mas como era mesmo a equação de segundo grau? Só lembro o delta..." Em frente à porta do banheiro, o maníaco reencontra o depressivo, que espera olhando para todo mundo e para ninguém. A morena bonita passa perto deles; acaba de sair da toalete feminina, onde passou colírio. Pisca seguidamente.
Os dois voltam ao balcão e pedem mais uma rodada. Horas depois, por insistência do depressivo, pagam a conta. O maníaco quer dançar numa boate; o depressivo quer dormir.
Então a morena de olhos vermelhos vê um maníaco-depressivo saindo do bar e cambaleando noite adentro.
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