Quando chegamos agora à casa de minha tia, ela ficou feliz com a visão da laranjeira carregada de frutos maduros, de um amarelo quase psicodélico. São laranjas pequenas, reluzentes e doces. Se meu pai estivesse aqui, também ficaria feliz, pois uma de suas muitas diversões prediletas era descascar laranjas com um capricho aristotélico. (Se isto fosse um poema, eu já teria uma rima: psicodélico-aristótelico. Uma rima pobre, é verdade, mas honesta. Acontece que isto é uma crônica, não um poema, então sigamos, eu e vocês sete.)

Esse pé de laranja deve ter uns 15 anos de idade. Foi plantado pela minha tia, que se chama Magadar Briguet. Magadar é um nome que vem de Madalena, que por sua vez vem de Magdala, "cidade da torre". E o Briguet de minha tia vem de briga mesmo. Bondosa e generosa como não conheço igual, não aconselho ninguém a ofendê-la ou provocá-la. É uma das mais importantes estudiosas e conhecedoras da previdência pública no Brasil; já deu nó em não sei quantos sindicalistas durante suas palestras Brasil afora. Um de seus motes é: "Não existe benefício sem custeio". Coisas difíceis de explicar aos filhos da CUT. Vou sugerir que ela use o sotaque do Padre Quevedo ao pronunciar a frase: "Benefício sem custeio non ecziste".

Mas voltemos à laranjeira. Minha tia comprou suas sementes achando que eram de outra árvore. Pediu expressamente ao sitiante japonês algumas sementes de limoeiro, pois é uma entusiasta das virtudes culinárias e medicinais do limão. O fato é que o tempo passou — e em vez do limoeiro cresceu a laranjeira. Minha tia não guarda ressentimentos do japonês; certamente, ele não agiu de má fé. Apenas equivocou-se. Um doce equívoco, aliás.

Outro que ficaria contente com a laranjeira carregada de laranjas seria o Vô Briguet, pai de Magadar. Sempre que penso em meu avô materno — lá se vão 33 anos que ele partiu! —, imagino-o carregando uma sacola de papel com frutas ou guloseimas. Ele era simplesmente incapaz de chegar em casa com as mãos vazias: trazia sempre alguma surpresa para as filhas e os netos. Eram laranjas, mangas, peras, abacates, goiabas, uvas, doces, balas, chocolates ou qualquer outra coisa gostosa de comer. Uma de suas diversões preferidas — assim como o genro, ele também as tinha — era abrir a geladeira para se certificar de que "não estava faltando nada". Dele, adquiri o hábito de andar pela casa de chinelos e meia nos dias frios. A propósito, escrevo assim agora.

Michelangelo, ao terminar uma de suas grandes esculturas, disse: "Fala, Moisés!" Drummond saudou a árvore que existia diante de seu prédio: "Fala, amendoeira!". Este cronista, que não tem a arte de Michelangelo nem a poesia de Drummond, limita-se a pedir emprestada a laranjeira da tia, que nem laranjeira era para ser, e apresentá-la aos seus sete leitores.

Mas pensam que minha tia desistiu? Nada disso. O limoeiro foi plantado anos depois, metros adiante. E o primeiro limão foi colhido neste final de semana.

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