Imagem ilustrativa da imagem O eterno retorno do filho pródigo
"O retorno do filho pródigo", de Pompeo Battoni (1773)



Desde a infância, a parábola do filho pródigo me abala profundamente. Sempre que ouço essa história contada por Jesus — no capítulo 15 do Evangelho de São Lucas —, sinto vontade de chorar. Acontecia mesmo no tempo de meu ateísmo.

A narrativa, de não mais que algumas linhas, tem inspirado teólogos, filósofos, poetas e artistas há 2 mil anos. É impossível ouvi-la sem identificar a viva presença de seus personagens: o filho esbanjador, o pai misericordioso, o filho mais velho, o servo do pai, talvez uma silenciosa e oculta mãe. De alguma forma, nós desempenhamos cada um desses papéis ao longo da existência. Ora somos o filho egoísta que desperdiça com prazeres fúteis toda a herança recebida; ora encarnamos as dores e as angústias de um pai abandonado pelo filho; ora nos magoamos por acreditar que nosso trabalho e nossa fidelidade não tiveram suficiente reconhecimento dos céus; ora somos o servo que presencia todo o drama e o guarda no coração; ora somos a mãe que, no silêncio do quarto, reza para o filho voltar.

Minha vida é uma luta constante para não recair na devassidão do filho mais novo nem na soberba do filho mais velho. Sim, eu continuo desempenhando ambos os papéis — e, o que é pior, simultaneamente. Em geral, o ser humano não percorre o caminho do filho pródigo em só uma ocasião na vida. Ele o repete inúmeras vezes, voltando a pecar e milagrosamente voltando a ser perdoado por um Pai que é amor puro.

O retorno do filho pródigo nos ensina que o perdão constitui a base estrutural da realidade em todo o universo. Por piores que sejam as nossas transgressões, por mais humilhante que seja a nossa luta para comer a lavagem dos porcos que nos é oferecida a cada segundo, há alguém disposto a nos acolher e nos abraçar se voltarmos para casa. Mas, para que isso aconteça, é necessário reconhecer o erro cometido e pedir perdão.

Vivemos numa época em que muitos filhos pródigos não se arrependem nem pedem perdão. Voltam para casa e exigem "seus direitos". Vejo um número cada vez maior de jovens que, recusando o abraço do pai, atacam o "patriarcado" e zombam da "família tradicional opressora". Defendem o direito sagrado de comer a lavagem ideológica que lhes é imposta pelos inimigos do pai. Gargalham — kkkkk — diante da perspectiva de um universo regido pelo perdão.

Todos os dias eu converso com jovens que estão obcecados pela revolta contra a estrutura da realidade — contra o pai misericordioso. Nesses momentos, eu me sinto como um ex-viciado em cocaína alertando sobre as ruínas da droga. Ou então como um homem que já matou a fome com as bolotas dos porcos e sabe o quanto isso é degradante.

Voltem para casa, filhos! Alguém lhes espera com um abraço e uma eternidade de alegria.

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