"Nada existe na realidade política de um país que não esteja antes na sua literatura."
(Hugo von Hofmannsthal)

Há algum tempo descobri que a linguagem jornalística é insuficiente para dar conta dos acontecimentos políticos e históricos; torna-se necessário, portanto, recorrer aos grandes livros. Quando penso na figura do sr. Renan Calheiros, que tentou mais uma vez assumir o comando do Senado Federal, mesmo sendo alvo de diversas e pesadas denúncias de corrupção, lembro-me do romance "Cangaceiros", do escritor paraibano José Lins do Rego (1901-1957). As atitudes de Renan e seus apoiadores em tudo se assemelham ao comportamento do cangaceiro Aparício e seu bando, que espalham o terror pelo sertão nordestino. Nos últimos 30 anos, o que Renan tem feito é transpor o modus operandi dos cangaceiros para o cenário político nacional. Para vencê-lo, foi preciso recorrer a um adversário implacável, Onyx Lorenzoni, que está longe de ser um personagem político da minha preferência, mas revelou possuir a astúcia de um daqueles guerreiros gaúchos que encontramos na obra de Érico Veríssimo.

Imagem ilustrativa da imagem O dragão da maldade contra o povo guerreiro
| Foto: Shutterstock



E há o povo. Sem a pressão popular, Renan jamais seria vencido. Por muitos anos, o único meio de ação disponível para os brasileiros eram as manifestações de rua; mesmo aí, porém, as pessoas ficavam dependentes de partidos, movimentos sociais e grandes financiadores, como ocorreu na época das Diretas Já. De 2013 para cá, no entanto, esses antigos senhores do engenho político perderam o controle sobre as multidões. O advento das redes sociais deu voz a milhões de pessoas que antes eram tão vulneráveis quanto Bento e Alice, o jovem casal de heróis em "Cangaceiros", obrigados a fugir do sertão para encontrar paz. Com as redes sociais, Bento e Alice puderam exercer pressão contra o cangaço político e impor uma derrota histórica aos barões do estamento burocrático. O que antes eram revoltas localizadas tornou-se uma luta nacional: o dragão da maldade contra o povo guerreiro.

No entanto, creio que seja preciso recorrer a outro gênero literário para narrar a contento os fatos que se deram em Brasília entre a sexta-feira e o sábado. Em vez do romance, do conto, da peça teatral ou do poema, usemos a farsa. Só a musa farsesca pode dar conta da decisão monocrática do sr. Dias Toffoli, que às 3h45 da madrugada suspendeu o voto aberto no Senado; só ela retrataria com fidelidade o roubo da pasta na mesa do Senado pela sra. Katia Abreu; só ela narraria o espetáculo da fraude dos 82 votos, transmitida em cadeia nacional.
Renan Calheiros veio das Alagoas, assim como seu ex-aliado Fernando Collor. Mas eu prefiro encerrar este texto pensando em três outros alagoanos que me enchem de orgulho e jamais se valeram dos métodos do cangaço: o romancista Graciliano Ramos, o poeta Jorge de Lima e o vendedor de bijus aqui da Avenida Higienópolis. Seu Lourival veio das Alagoas para mostrar que o nosso povo guerreiro ainda tem motivos para sorrir.
Só o povo pode vencer o dragão da maldade.

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