O diabo acredita em Deus
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de setembro de 2018
Paulo Briguet 

"Que tens tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos? Sei quem és: o Santo de Deus!" (Mc 1,24)
No conto intitulado "É difícil encontrar um homem bom", a escritora norte-americana Flannery O'Connor (1925-1964) narra o massacre de uma família por um psicopata. Prestes a ser morta, a avó da família tenta apelar aos bons sentimentos do bandido. Assassino e vítima travam então o seguinte diálogo:
"- Jesus o ajudaria - disse a velha senhora - se o senhor rezasse.
- Isso é verdade - disse o Desajustado.
- Mas então por que não reza? - perguntou ela, trêmula, num repentino deleite.
- Não quero ajuda - disse ele. - Tenho me dado bem sozinho."
Flannery O'Connor, natural do Sul dos EUA, onde todas as suas histórias são ambientadas, era uma fervorosa católica. Certamente não foi por acaso ou carolice que ela mencionou o nome de Jesus nas passagens finais do referido conto. No trecho que acabamos de ler, a autora expõe uma característica fundamental da graça divina: ela só se manifesta a quem está disposto a recebê-la, a quem se abre para a salvação. Até o diabo acredita em Deus, mas isso não basta para salvá-lo.
Logo em seguida, Jesus é outra vez mencionado. Enquanto a nora e dois netos da velha senhora são exterminados em uma mata próxima, a mulher repete o nome do Filho do Homem, em um tom mais próximo do xingamento que da prece. A reação da mulher desperta uma reação algo filosófica no bandido:
"- É, dona - disse o Desajustado, como se concordasse. - Jesus desequilibrou as coisas. O mesmo caso, o dele e o meu, só que ele não praticou nenhum crime, e o meu eles puderam provar, porque tinham tudo anotado na minha ficha. É claro que eles nunca me mostraram a ficha. Por isso agora eu assino tudo. Há muito que eu digo, o negócio é caprichar na assinatura, assinar tudo que fizer e guardar cópia. Você assim poderá saber o que fez, podendo comparar o crime ao castigo, para ver se correspondem, e por fim terá alguma coisa para provar, se não for tratado direito. Se eu me chamo Desajustado, é porque não faço esse ajuste, não consigo encaixar as coisas para que tudo que eu fiz de errado corresponda a tudo que sofri de castigo."
Durante a minha vida, devo ter lido esse conto dezenas de vezes. Hoje eu sei por que ele me atrai tanto: na figura do Desajustado, Flannery O'Connor expõe a insaciabilidade do mal. O que vemos hoje no Brasil são as consequências dessa insaciabilidade; o crime e a mentira se multiplicam tanto, e crescem de maneira tão avassaladora, que alguns conseguem enxergar diante de si apenas espantalhos, e não a verdadeira maldade. Mergulhados na ilusão, até como forma de autodefesa, muitos passam a acreditar que um abraço da paz, uma pombinha feita com as mãos ou um slogan piedoso serão suficientes para vencer o mal.
Não são. As palavras e ações que vencem o mal precisam ser duras como a rocha. Ou como um conto de Flannery O'Connor. Ou como os ensinamentos de Jesus.
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