O dia em que tive 84 leitores
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quarta-feira, 02 de agosto de 2017
por Paulo Briguet 

De vez em quando cronistas são chamados de egocêntricos. Eis uma grossa leviandade. Cronistas, bons ou ruins, vivem na primeira pessoa. Criticá-los por isso é como acusar um nadador de dar braçadas demais, um monge de rezar demais, um filósofo de pensar demais. Todos os grandes cronistas que a literatura brasileira produziu pensemos em Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, José Carlos Oliveira, Antônio Maria, Fernando Sabino, Nelson Rodrigues sempre usavam a primeira pessoa, e muitas vezes eram francamente confessionais. Dizer a um cronista que ele não pode abusar da palavra "eu" é como proibir um centroavante de fazer gols!
Ocorre que determinadas figuras, advindas de alguns círculos acadêmicos, ficam chateadas, ou mesmo furiosas, quando o cronista não diz o que elas querem ouvir. Se não defender o partido certo, a ideologia certa, o movimento social certo, o ídolo revolucionário certo, o cronista não passa de um "fascista", um "lacaio do capitalismo" ou um "serviçal das classes opressoras". A expressão da individualidade irrita sobremaneira os porta-vozes do coletivismo. No fundo, eles odeiam a liberdade quando ela não beneficia os companheiros.
Com a licença dos críticos, gostaria de falar sobre uma grande alegria que tive nesta semana. Vocês sete devem estar lembrados do Daniel, aquele menino do União da Vitória que precisava de uma máquina de escrever. Pois ontem o meu amigo Genésio me ligou muito contente, dizendo que o Daniel já está com a sua máquina. Perguntei ao Genésio quantas pessoas haviam entrado em contato com ele. A resposta me deixou desconcertado: 84!
Sinceramente, eu não esperava que tantas pessoas se dispusessem a ajudar o menino. Oitenta e quatro almas se mobilizaram pelo Daniel. Oitenta e quatro corações. Oitenta e quatro gestos de bondade, de consideração, de amor ao próximo. Oitenta e quatro razões para continuar escrevendo, mesmo que alguns torçam o nariz.
Se fossem sete ligações, eu ficaria imensamente feliz. Se fosse apenas UMA ligação, eu ficaria plenamente satisfeito. Mas, 84! É muita alegria para um cronista só. Genésio me disse que ligou gente de Cornélio a Cruzeiro do Oeste, todos oferecendo suas máquinas de escrever para o garoto. Sabe o que eu fiz? Rezei uma Ave-Maria para cada um deles. Sim: 84 orações de Nossa Senhora para essas pessoas do bem.
"A fama é reles", diz o belo poema de Pasternak. Importante mesmo é aquilo que dá sentido à vida. Entendem agora por que eu gosto de dizer eu? É que assim fico mais perto das pessoas, me pareço mais com elas, descubro que cada um dos meus sete leitores, mesmo multiplicados por doze, são um milagre único de Deus.
Oitenta e quatro vezes obrigado!


