O dia em que eu conheci você
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terça-feira, 05 de fevereiro de 2019
Paulo Briguet 

Se meus cálculos não estão errados, hoje faz 30 anos que conheci a mulher da minha vida. Uma noite antes, eu havia tomado várias cervejas no bar Zero Grau, na companhia do Beto, do Hugo Japonês e do saudoso Gordo Edson. Esse bar, que não existe mais, ficava quase na esquina da JK com a Higienópolis, cujo mistério levei alguns anos para decifrar: como é que as duas avenidas conseguiam ser paralelas e perpendiculares ao mesmo tempo? Contudo, eu levaria ainda mais tempo para atravessar a rua, do Zero Grau para a Igreja Coração de Maria, onde me casaria em 9 de novembro de 2017.
Naquela noite, em fevereiro de 1989, depois que saí do bar, cheguei à república da Rua Humaitá, número 143, deitei no sofá da sala e fiquei ouvindo, em volume baixo para não acordar os companheiros, uma fita cassete do Legião Urbana. Acionando o botão REW do toca-fitas, ouvi umas 17 vezes a mesma canção, "Eduardo e Mônica". Imitando a voz de Renato Russo (baixinho, para não acordar ninguém), eu repetia o refrão: "E quem irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?"
Dormi com aquela música na cabeça. Na manhã seguinte, acordei, tomei um banho, escovei os dentes e engoli uma aspirina para a dor de cabeça. Abri a porta da república e contemplei as árvores da pracinha: garoava na manhã de fevereiro. Sem guarda-chuvas, caminhei até o ponto de ônibus próximo ao Bar dos Baianinhos, que ficava na esquina da Paranaguá com a Humaitá (reparem, vocês sete, que as ruas têm nome de batalhas; logo abaixo fica a Canudos).
O ônibus 305, via Água Verde, estava lotado. Mesmo assim parou e eu consegui entrar, por um desses milagres da física que só o professor Wolfgang Smith conseguiria explicar. O ônibus passou pelo condomínio Água Verde, onde subiram a bordo mais uns sete estudantes (só Deus e o professor Smith sabem como) e o motorista deu ré. Juro que eu nunca tinha visto um ônibus de linha urbana dar ré.
Quando entramos na universidade, eu, ansioso, saltei logo no primeiro ponto. Era o ponto errado. Perguntei a uma simpática japonesinha de jaleco branco onde eu estava; ela me informou que ali era o Centro de Ciências Biológicas.
"Que curso você faz?"
"Jornalismo."
"Tá longe, hein? Fica do outro lado do campus."
Olhei para a imensa peroba que se erguia no gramado, como um braço erguido para o céu. Respirei fundo e atravessei o campus universitário debaixo de chuva até o local da minha primeira aula.
Quando abri a porta da sala, uma caloura estava se apresentando à turma:
"Meu nome é Rosângela Vale..."
Senti um pequeno frio na barriga e meu coração se acelerou. Era Deus me avisando que aquela seria a mulher da minha vida e a mãe do meu filho.
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