O dia em que esqueci o celular
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de maio de 2018
por Paulo Briguet 

Saí com pressa e esqueci o celular em casa. De início, fiquei aborrecido, mas depois resolvi experimentar o dia sem ele.
Puxei conversa com o vizinho no elevador. Descobri que ele será avô dentro de poucos dias, e o nome do netinho será Pedro.
Dei um bom-dia mais prolongado e enfático a todos.
Percebi que as manhãs paulatinamente estão ficando mais frescas.
Certifiquei-me de que o céu de Londrina foi pintado pessoalmente por Deus.
Contei a uma vizinha que a Lua cheia provocou mudanças de comportamento no Cisco talvez ele tenha achado que a noite era dia.
Adiantei a reza de vários mistérios do terço.
Um menino que esperava na fila da padaria me disse que está colecionando as figurinhas da Copa e vai ao Shangri-Lá para tentar conseguir as últimas.
O taxista José me contou que o taxista Galindo, meu amigo lá do ponto da Mato Grosso, foi aluno da professora Idiméia, aquela que dias atrás escreveu uma linda carta ao cronista de sete leitores.
Na fila do banco, terminei de reler "A Morte de Ivan Ilitch" e "Senhores e Servos", e certifiquei-me mais uma vez de que Tolstói é meu escritor preferido. Os clientes do banco devem ter estranhado quando me viram chorando em público, mas é que Tolstói me faz lembrar meu pai o velho russo também era amado por ele.
De uma forma completamente inesperada, recebi uma boa notícia de um homem até então completamente desconhecido para mim. E o mais interessante foi perceber que ele também ficou alegre com a minha alegria.
Pensei então, nos meus amigos que não usam celular, a começar pelo Domingos Pellegrini. Quantas boas histórias ele teria deixado de escrever não fosse o impertinente aparelho?
Lembrei-me de uma entrevista de Philip Roth, no início dos anos 2000, quando resolveu sair de seu retiro nas montanhas para dar um passeio por Nova York e estranhou que todas as pessoas estivessem falando sozinhas. É claro que elas estavam falando com ele, o celular. Talvez o problema do mundo seja precisamente esse: estamos falando sozinhos.
Ao final do dia, cheguei em casa e ele estava lá, à minha espera. Notei um certo ar de mágoa em sua tela, mágoa que se traduzia em uma série de recados, notificações, e-mails e registros de chamadas não atendidas. Confesso que imediatamente me pus a ler os recados, conferir as notificações, abrir as mensagens.
Acho que já contei a vocês sete que meu pai não se dava muito bem com celulares. Certa vez, quando lhe perguntei o número de minha irmã, ele disse:
Está no aparelho!
Peguei o celular de meu pai e realmente o número estava lá: anotado num pedaço de esparadrapo.
É, meu pai não entendia nada de celular. Mas me ensinou a ler Tolstói.
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