O Dia dos Pais sem fim
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sexta-feira, 10 de agosto de 2018
Paulo Briguet 

Numa dessas tardes frias de agosto, caminho pensativo pelo centro da cidade, quando encontro uma amiga que acaba de perder o pai. Dou-lhe um abraço e manifesto meu sentimento. Minha amiga então pergunta:
Paulo, você já passou por isso. Como é que a gente faz?
A pergunta de minha amiga me faz lembrar uma passagem de Milan Kundera em "A Insustentável Leveza do Ser". Diz o autor tcheco que a vida é como uma peça de teatro em que o primeiro ensaio é também a noite de estreia. Em outras palavras, aprende-se a viver vivendo. Ninguém aprende a perder um pai; a passagem por essa dor já é o seu aprendizado.
Mas uma coisa eu pude dizer à minha amiga: a saudade que estamos sentindo, e que dói tanto nos primeiros dias, acaba por se transformar em uma parte de nós. O trabalho, a família, a amizade e a oração ajudam, mas ninguém aprende a ser órfão; você apenas se torna um.
Este será o décimo Dia dos Pais sem meu pai. Dez anos em que eu não pude lhe dar um abraço, caminhar ao seu lado, tomar uma cerveja com ele, dedicar-lhe uma crônica que ele pudesse comentar no dia seguinte. O Dia dos Pais sempre cai no domingo, e meu pai morreu em um domingo.
Morreu no domingo aquele que certo dia foi um adolescente de 17 anos, recém-chegado a São Paulo, com o sonho de cursar Direito na Faculdade do Largo de São Francisco. Procurou um diretor de um cursinho, que o aconselhou a nem tentar o vestibular, pois não teria a mínima chance. Depois de estudar sozinho durante um ano, Paulo passou no vestibular e realizou seu sonho impossível.
Morreu no domingo aquele que certo dia eu vi ser abraçado pelo dono de uma barraquinha de doces, em São Paulo. O homem virou-se para mim e disse: "Menino, seu pai salvou minha vida!"
Morreu no domingo aquele que certo dia me deixou um envelope com a seguinte inscrição: "Se alguma coisa acontecer comigo..." Dentro do envelope, encontrei uma série de instruções sobre como levar a vida sem ele.
Eu disse que a saudade com o tempo passa a ser uma parte de nós. Mas não é só isso. Nos últimos tempos, venho notando que estou cada vez mais parecido com Paulo. Não apenas quando olho no espelho de manhã, como também nos pequenos gestos e hábitos. Dias atrás, peguei-me colocando o sorvete por alguns segundos no forno de micro-ondas, para "quebrar o gelo". Quando me viu fazendo isso, Rosângela sorriu e me disse:
É exatamente o que seu pai fazia, Paulo!
Minha voz, meu olhar, minhas piadas, minha maneira de andar, minha tosse (!) tudo me deixa a cada dia mais parecido com o homem que eu não posso mais abraçar no Dia dos Pais.
É, minha amiga. Ninguém nos ensinará a viver sem eles. Mas quando menos esperarmos, descobriremos que eles estão vivendo dentro de nós, lá no coração, onde é sempre Dia dos Pais.
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