O cão da mulher e a mulher do cão
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de setembro de 2016
Paulo Briguet 

Há exatos 15 anos, terroristas derrubaram as Torres Gêmeas. Há exatos 25 anos, o Partido Comunista da União Soviética foi colocado na ilegalidade. Há exatos 13 dias, Dilma Rousseff tornou-se ex-presidente do Brasil e eu encontrei um cachorro morto na esquina da minha rua.
Era um cachorro preto, de médio porte, sem raça definida. Nunca saberei o seu nome. Deitado ao sol, de longe parecia estar simplesmente dormindo e sonhando seus sonhos caninos: ossos, bifes, bolinhas. Cheguei mais perto e constatei que o bicho dormia, sim; mas era o sono eterno.
Alguém o atropelara na noite anterior. Um pequeno fio de sangue escorria de sua boca; ele parecia sorrir, como o gato de Alice. Compadecidos, os vizinhos já discutiam como tirar o corpo do animal dali e lhe dar um sepultamento digno. O médico veterinário do bairro encarregou-se de providenciá-lo.
Neste final de semana, meu colega colunista Cláudio Humberto informou que Nego, o labrador de Dilma Rousseff em Brasília, fora sacrificado com cinco injeções, a pedido da ex-presidente. De início, preferi acreditar que eram só boatos. Mas parece ser verdade.
A alegação para o sacrifício de Nego foi a de que o animal estaria muito velho (14 anos) e não suportaria uma viagem para Porto Alegre, onde a ex-presidente passou a residir. Mas, nesse caso, não seria melhor deixá-lo com algum assessor ou o funcionário do Palácio do Alvorada? Por que as injeções? Por que a morte?
Sou um cara otimista, tão otimista que beiro a ingenuidade. Espero sinceramente que alguém apareça para dizer que tudo não passou de um grande mal-entendido. Que Nego está velhinho, mas vivo e feliz ao lado de alguma alma caridosa (como aquele cachorro do romance "Sem Família", de Hector Malot). Quem sabe se a ex-presidente, de última hora, não ficou com pena do labrador e resolveu levá-lo para seu apartamento na capital gaúcha?
Agora, se ela mandou mesmo matarem o Nego, dificilmente encontraremos um símbolo melhor do modo de pensar da ex-presidente. Pensando bem, quem não hesitou em destruir o país para ganhar uma eleição, por que hesitaria em destruir um animal quando lhe era mais cômodo?
Fiquei pensando naqueles dois bichos: Nego e o cão sem nome encontrado na esquina. O cão do Alvorada e o cão do Guanabara. O famoso Nego, que já foi de José Dirceu, talvez tenha como destino pertencer a políticos que vão para o xilindró; o vira-lata anônimo talvez só venha a ser conhecido pelos sete leitores deste cronista. Nego viveu exatamente os 14 anos do reinado petista; o cãozinho da esquina talvez tenha morrido antes que a cidade venha a ser governada por gente semelhante.
Há 15 anos, as Torres Gêmeas caíram. Há 25 anos, o PCUS foi dissolvido. E desde ontem eu estou pensando em Nego e no vira-lata, a brincar de bolinha no céu dos cachorros.
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