Imagem ilustrativa da imagem O canto do passarinho perdido
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No lugar em que estou agora, as ruas têm nomes de pássaros: dos Tangarás, do João-de-Barro, dos Sanhaços, do Sabiá, dos Curiós, dos Uirapurus, dos Periquitos, do Pica-Pau, dos Xexéus, das Araras, das Gralhas, dos Colibris, das Arapongas, do Tico-Tico. E a avenida das Andorinhas.

Não me perguntem por que algumas ruas têm nome no plural e outras no singular. Eu não sei. O fato é que Sabiá, João-de-Barro, Pica-Pau e Tico-Tico aqui parecem ser aves solitárias, como eu estarei nas próximas semanas, enquanto escrevo o livro "Coração de Mãe".

Mas eu não me sinto completamente sozinho aqui. Além dos pássaros, fazem-me companhia as lembranças. Nossa família tinha o costume de se reunir nesta casa ao pé da montanha, e se reúne até hoje no mês de dezembro. Acontece que nem todos podem comparecer mais.

Meu pai adorava vir a esta casa. Ontem resolvi fazer uma caminhada no final da tarde e pensei muito nele. Paulo passou a infância em cidades do interior de São Paulo, todas pequenas na época — Santa Adélia, Catanduva, Guararapes, Mirandópolis. Ali deve ter aprendido a diferenciar os pássaros cujos nomes eu agora leio nas placas das ruas.

Fui um menino criado em apartamento, um "piá de prédio", como dizem em Curitiba. Quase tudo que sei sobre pássaros li nas crônicas de Rubem Braga. Caminhando pelas ruas desertas, enquanto o Sol se escondia e o frio aumentava, me perguntei qual desses pássaros meu pai gostaria de ser, se Deus lhe desse a chance de voltar ao mundo por alguns minutos. Acho que seria o bem-te-vi, um dos poucos cujo canto eu sei reconhecer.

Voltando para casa, quando o frio se tornou mais intenso e a noite apareceu de vez, eu pensei que no que aconteceu no dia 18 de setembro de 1958. O dia em que meu pai perdeu seu pai. O dia em que Paulo perdeu Antônio. Na época, Paulo tinha apenas 17 anos, fazia o colegial em Araçatuba. Morava na Casa Paroquial e dava aulas particulares de latim, português e matemática para se sustentar. Deve ter sido difícil lhe faltar o pai tão cedo. Hoje, quase sessenta anos depois, estou aqui, pensando em nomes de pássaros, e levando comigo o nome de dois homens: chamo-me Paulo Antônio.

Meu pai gostava muito de caminhar no bosque próximo à Avenida das Andorinhas. Elas voam para o mar; Paulo caminhou para outro lugar. É inevitável esperar que ele reapareça na curva deste bosque que não tem nome, mas que poderia se chamar Bem-Te-Vi. É inevitável acordar de manhã, nesta casa em que trabalho sozinho, e imaginar que ele está sentado na poltrona de sempre, fumando, lendo jornal, assobiando alguma velha canção de passarinhos.

À noite, depois de fazer minhas últimas orações, olho mais uma vez para a poltrona de Paulo. Observo o bairro em que as ruas têm nomes de pássaros: todos eles já voltaram para seus ninhos. Em algum lugar da eternidade, Paulo e Antônio olham para mim e sorriem. Por isso, eu escrevo.

Bem te vi, pai. Bem te vi, vô.

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