O bosque da ressurreição
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de abril de 2018
por Paulo Briguet 

Às vezes paro tudo que estou fazendo para ir ao bosque da ressurreição. Ponho de lado as crônicas, os livros, as polêmicas, as contas e as mensagens só para viver alguns minutos de paz e silêncio no bom lugar. Caminho por entre as árvores e as flores, piso no chão de cascalho, ouço os passarinhos e um cão que late muito distante. O sol da tarde sorri entre as folhagens, o tempo não urge, as cobranças ficam para depois. O importante é estar aqui; o importante é estar; o importante é.
No bosque da ressurreição não há política, não há poder, não há conflito. Ninguém espera a minha réplica, o meu parecer, a minha posição. E, no entanto, a realidade aqui se faz presente como em nenhuma outra parte. Posso tocá-la com as mãos, discernir a sua forma, ouvir a sua voz, dizer-lhe palavras amigas. Quem entra no bosque da ressurreição deixa para trás toda descrença, toda malícia, todo não. Existe aqui uma enigmática harmonia entre o ser e as coisas, como na Sonata das Gotas de Chuva.
No bosque eu encontro tudo aquilo que preciso: minha alegria, minha dor, meu perdão. Vejo que se fecham as feridas que causei, as do passado remoto e as do passado recente. As palavras infelizes que pronunciei transformam-se em água, e a água desce para o córrego, e o córrego desce para o lago, e o lago desce para o rio, e o rio desce para o mar, adeus. As ofensas, as raivas, os ódios, os medos e os desesperos pulverizam-se como dentes-de-leão soprados pelo deus Éolo. Não há mais nada, nenhum rancor, nenhum remorso, nenhum ressentimento.
Eis que encontro habitantes do país da saudade. Pai lê um livro na sala; Mãe dá uma aula sobre a Grécia antiga; Vó Maria reza baixinho no quarto; Vô Briguet foi comprar Balas Chita para mim na mercearia do Seu Duílio; ouvimos Palmeiras e Corinthians pelo rádio, com narração de Fiori Gigliotti; Madre Lourdes e Irmã Ângela falam sobre Nossa Senhora de Fátima; o menino que morreu no acidente volta e sorri; Ranulfo contempla o altar dourado numa igreja barroca em Ouro Preto; Zé e Barroso tomam a última cerveja no Clube da Esquina; Bernardo, Tanga, Marcelo e Silvia riem da mesma piada na Toca do Bode; eu e Adalberto vendemos exemplares do jornal mimeografado "O Polegar" para nossos coleguinhas de 3º ano primário; amanhece na Fazenda Janeta; Rosângela diz que escolheu o curso de jornalismo porque sempre gostou de escrever; leio um poema de Boris Pasternak em um sebo do centro de São Paulo que há muitos anos fechou as portas... Ah, amada solidão da presença!
Nos meus passeios pelo bosque da ressurreição, só há um momento triste: o de voltar. Quando sei que é chegada a hora, faço um esforço para guardar no coração todos os nomes e todas as cenas que Deus me permitiu rever, com Sua infinita generosidade. Volto para o mundo, com a certeza de que o medo nunca mais será o meu senhor. Felizmente, o bosque da ressurreição fica bem ao lado de casa, e é permitido voltar sempre, sempre.
E eu voltarei, Madre Leônia.
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