O baile das máscaras vermelhas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de setembro de 2018
Paulo Briguet 

A palavra personalidade deriva do grego "persona", que quer dizer máscara. Por isso, não me surpreendi em nada com a manchete que li ontem: "Personalidades da cultura lançam manifesto contra #Ele".
Seria realmente um erro chamá-los de artistas, de intelectuais, de pensadores ou de qualquer outro nome que um dia tenha possuído alguma aura de credibilidade. Um pouco mais adequado é usar para eles os qualificativos de queridinhos da mídia, beautiful people, jet set, classes falantes, celebridades ou famosos. Mas penso que o termo mais exato é mesmo "personalidades". No sentido original da palavra: aqueles que usam máscaras.
Roberto Campos dizia que o PT é o partido dos trabalhadores que não trabalham, dos estudantes que não estudam e dos intelectuais que não pensam. No caso dos signatários do documento, temos também compositores que não compõem, escritores que não escrevem e jornalistas que não informam. A propósito, alguém sabe me citar uma boa música daquele compositor baiano que tenha sido composta antes de 1989? Nem eu. Não são artistas; são, quando muito, ex-artistas.
Passaram da adolescência à velhice sem nunca ter conhecido a maturidade; passaram da obscuridade à fama sem nunca ter conhecido a relevância; passaram da alienação ao engajamento em nunca ter conhecido a realidade. São caricaturas de si mesmos, reflexos de reflexos, sombras de sombras, fantasmas com medo de pessoas vivas.
Como nada criam, os mascarados têm medo das criaturas que possuem rosto. Têm medo das Marias, dos Josés, dos Joões, das Anas, dos Pedros, das Rosas, dos Paulos, das Renatas, das Cecílias, das Adélias, dos Olavos. Têm medo dos homens, das mulheres, das crianças, das famílias, dos trabalhadores, dos empresários, dos pobres, dos habitantes do mundo real.
Na verdade, além de despertar nossa repulsa, deveriam também causar nossa compaixão, pois não deve ser fácil viver assim: imaginem a quantidade de Prozac no Projac! Imaginem o desespero de um intelectual que já na terceira idade descobre que toda sua carreira foi baseada numa farsa! Imaginem a vergonha do ex-perseguido político que recebeu uma polpuda indenização vitalícia e agora será desmascarado!
Eis o medo desses caras: ser desmascarados. Enxergam uma ditadura onde ela não existe para não perder a tirania que os sustenta. Denunciam como censores aqueles que gostariam de censurar. Chamam de violentos aqueles que gostariam de ver mortos. Devem sofrer um bocado quando se recordam daquela velha marchinha:
"- Quem é você?
- Adivinha, se gosta de mim..."
Há algum tempo os mascarados do grande baile vermelho descobriram que o povo brasileiro não gosta mais deles. Por isso, inventam fantasias numa última tentativa desesperada de evitar o fim da festa. Mas a noite deu lugar à manhã, e agora só lhes resta chorar como nos versos de Fernando Pessoa:
"Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido."
É tempo de desmascarar. É tempo de ver o Brasil - face a face.
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