O amor é mais forte que a morte
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sexta-feira, 15 de julho de 2016
por Paulo Briguet 

Outro dia o Pedro chorou porque "no Brasil tem muito bandido". Com os acontecimentos de Nice, que infelizmente não podemos esconder de nossas crianças, percebemos que o crime contra a vida humana é globalizado, mas ao mesmo tempo tomamos consciência da nossa extrema vulnerabilidade. O Brasil está prestes a realizar uma Olimpíada, depois de ter sido destruído por uma alcateia de ladrões. Como vamos nos proteger do mal? Só rezando a Deus e invocando a intercessão dos santos. Por isso, hoje eu quero falar sobre o amor, não sobre a morte.
Minha mãe era uma pessoa muito caprichosa. Seu dom natural era cuidar das pessoas dom que ela exerceu nos papéis de mãe de família e professora de escolas públicas. Mas Aracy também cuidava bem das coisas.
Em algum momento da nossa infância ela comprou um aparelho de chá chinês. Parece que o estou vendo agora, na tela em branco do computador em que escrevo. Feito em louça finíssima, era todo desenhado à mão. Eram seis xícaras, um bule e um açucareiro. Era realmente lindo, com a beleza e o encanto das coisas fragilíssimas.
Minha mãe tinha um cuidado todo especial com aquele conjunto. Arrumou para ele um canto da sala, atrás da mesa de jantar que raramente usávamos, livre das correrias de crianças e dos deslocamentos cotidianos. Era talvez o lugar mais protegido da casa. Todas as semanas, Aracy tirava a poeira das xícaras chinesas e, ao fazê-lo, dizia-nos com a sua carinhosa severidade: "Vocês nunca cheguem perto dessas xícaras!"
Tamanho era o xodó de minha mãe com o aparelho de chá que o assunto virou piada familiar. Perguntávamos a ela qual seria a ocasião em que finalmente usaríamos aquele bule, aquele açucareiro e aquelas xícaras. O presidente da República, a rainha da Inglaterra e o Pelé não eram célebres o suficiente para essa deferência. Só uma personalidade humana justificaria o uso do aparelho: Sua Santidade, o papa João Paulo II.
Um dia sonhei que o papa nos visitava. Com aquele seu sotaque inconfundível, o pontífice polonês dizia:
Dona Aracy, cadê u tal aparélho
ditchá? Vai me servir ou naum?
No sonho, o papa sorria para Aracy, que estava em prantos por receber o Vigário de Cristo. Mas acordei antes que ela realmente servisse o chá ao papa.
Depois que minha mãe partiu, em 2011, a guardiã do aparelho de chá passou a ser minha irmã Fernanda. Hoje ele está lá, bem guardado em Bauru.
E por que estou falando nisso? Porque todos nós, inclusive vocês sete, possuem objetos que adquirem um significado muito maior do que os valores de mercado, a ponto de serem tratados pelos pronomes pessoais "ele" e "ela". Aquele aparelho de chá não era feito apenas de louça, mas principalmente de sonho. Ele era a representação e o reflexo perfeito de minha amada mãe: delicada, bonita, especial, única. São coisas assim que dão sentido à vida.
Um dia, o aparelho de chá poderá se desfazer em cacos, caído no chão como aquela boneca na rua de Nice. Mas, neste momento, eu ouso ir além do que diz o autor do Cântico dos Cânticos, e afirmo com todas as letras: O amor é mais forte que a morte.
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