Imagem ilustrativa da imagem Nicarágua perdeu
| Foto: Barna Tanko/Shutterstock.com



No meu quarto de adolescente havia dois pôsteres na parede. O primeiro exibia a frase NICARÁGUA VENCEU com a imagem dos revolucionários sandinistas em 1979. O segundo dizia EL SALVADOR VENCERÁ e mostrava a foto de um guerrilheiro esquerdista. Eu me considerava um cara muito engajado por causa desses cartazes. Enxada, que é bom, nem pensar.

Como sou meio burro, demorei alguns anos para perceber que o sandinismo era uma organização criminosa. É verdade que o bigodinho, os óculos quadrados e os punhos erguidos de Daniel Ortega nunca me convenceram plenamente, mas ele representava o Socialismo, a Revolução, a Esquerda – e durante muito tempo essas palavras exerceram um fascínio quase irresistível para minha pobre geração.

A luzinha amarela do simancômetro acendeu quando soube que os líderes sandinistas, derrotados nas urnas por Violeta Chamorro, em 1990, haviam confiscado para uso próprio mansões que pertenciam a antigos adversários políticos. De início, achei que era propaganda da "imprensa burguesa", mas depois vi que era verdade. Mais tarde soube que os líderes soviéticos – entre eles Lênin, Trotsky e Stálin – haviam feito o mesmo com propriedades dos czaristas. É um velho procedimento, como se vê pelo caso de vocês-sabem-quem. Líderes esquerdistas em geral gostam de mansões e sítios luxuosos.

Naquele mesmo ano, fui assistir a uma peça teatral nicaraguense no Ouro Verde. Entrei com vontade de adorar o espetáculo, mas não aguentei até o fim. No palco, a expressão "Señor General" era repetida centenas e centenas de vezes, sem parar. Sim, havia alguma coisa errada com aquela revolução nicaraguense. Por que o teatro sandinista tinha que ser tão chato?

Para citar outro acontecimento de 1990, o professor Augusto de Franco narra em artigo – intitulado "Por que a esquerda enveredou para o crime" – o comportamento dos líderes sandinistas durante a primeira reunião do Foro de S. Paulo. A primeira coisa que os mandachuvas de Manágua quiseram saber foi onde poderiam arranjar prostitutas. Fidel Castro comandava Daniel Ortega aos berros, passando-lhe pitos em público. Afinal, ele era um guerrilheiro treinado em Cuba – assim como aquele líder petista que hoje está preso e só não é presidente da República porque Roberto Jefferson não deixou.

Na sexta-feira passada, Daniel Ortega deu um golpe e destituiu os 28 deputados de oposição que restavam no parlamento da Nicarágua. Assim, o guerrilheiro que tomava broncas de Fidel abre caminho para ficar indefinidamente no poder. Sua mulher é cotada para vice. Seus filhos dirigem estatais. A popularidade do sandinista vai às alturas.

Dá para perceber do que nos livramos?

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