Minha vida por um Cisco
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de abril de 2018
por Paulo Briguet 

A Rosângela diz que eu só não levo uma vida totalmente sedentária porque todas as manhãs saio para passear com o cachorrinho. "Você precisa fazer mais exercícios", adverte ela, com carinho.
Não seria exagero afirmar, portanto, que a minha vida está por um Cisco. Parte considerável de minha sobrevivência eu devo a esses passeios matinais com o nosso vira-lata durante os quais aproveito para comprar pão, observar as redondezas e rezar mistérios do terço.
Nas manhãs de sábado e domingo, vou contemplando os restos da noitada londrinense: garrafas, copos, vidros quebrados, marcas de pneu no asfalto e os últimos frequentadores saídos dos bares e das boates. Entre os remanescentes da balada, que outrora chamava-se boemia, há sempre uma ponta de tristeza, mesmo que eles falem alto, deem risadas e ouçam música (música?).
Conheço essa tristeza pelo simples fato de que já morei nela. Minha vida esteve por um cisco em outras épocas. Por isso, me identifico com o rapaz que passou cambaleante ao nosso lado, emitindo sons em um estranho idioma gutural. É um jovem, que não deve ter 30 anos. Para onde está indo? Não ouso perguntar, porque dificilmente ele me entenderá. Segue o seu caminho na Avenida Madre Leônia, agora cantando alguma estranha canção.
Penso então em quantas vezes fui salvo por alguém em que não acreditava, mas que estava bem ao meu lado, protegendo-me silenciosamente. Assim como algumas reações químicas ocorrem pela simples presença de substâncias catalisadoras, a salvação da minha alma (e do meu corpo) só aconteceu porque uma Pessoa se achava próxima.
Certa vez, há uns 20 anos, fiz a ronda dos bares, e de repente comecei a ter visões sombrias, em que cães raivosos me cercavam num beco sem saída. Os cães desapareceram, mas a escuridão ainda me envolvia como seu manto sombrio e impessoal. Grossas gotas de suor gelado brotavam em minha testa. Ocorriam-me pensamentos de aniquilação, enquanto subia uma rua íngreme, rumo a lugar nenhum.
Nesse momento, o telefone tocou. Era um daqueles velhos celulares que mal e mal serviam para fazer ligações. Do outro lado da linha, alguém que me deu uma notícia ruim. Assunto político, nem me lembro direito qual.
Desliguei o telefone, com muita raiva e então que estava no meio de uma praça. À minha frente, havia uma igreja incendiada. Olhei para o templo em ruínas, consumido pelo fogo. O teto da igreja viera abaixo; as paredes pareciam feitas de carvão; os bancos e as pilastras estavam todos calcinados e quebrados; as imagens dos santos não estavam nos nichos; mas, ao fundo, via-se a cruz. Então pensei, como se fosse uma terceira pessoa:
Esta é a minha alma.
Todas as vezes em que encontro um jovem sem rumo nos meus passeios matinais com o Cisco, eu me lembro daquele dia, daquela imagem, daquela igreja. Aquele rapaz que passou por mim sou eu.
Depois, rezo. E voltamos para casa.
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