Meu velho e o mar
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terça-feira, 22 de janeiro de 2019
Paulo Briguet 

"Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."
(Fernando Pessoa)
Meu pai amava o mar. Sempre que descíamos a serra com destino ao litoral, era possível ver a alegria de Paulo aumentando a cada quilômetro. Assim que avistávamos a primeira nesga do oceano, ele cantava (mal) uma velha canção portuguesa, da qual só conhecíamos os dois versos iniciais:
"Eu vim aqui pra tomar banho de maire
Eu vi, eu vi, passarinhos a voaire"
Eram felizes, aquelas viagens. Na descida da serra, pelo sistema Anchieta-Imigrantes, eu e a Fernanda, aconselhados por Aracy, abríamos a boca em um bocejo que não era de sono; era, digamos assim, um bocejo preventivo, para que os nossos ouvidos não ficassem tampados com a diferença de pressão entre o planalto e o litoral. A viagem pela Imigrantes fascinava por causa dos túneis, entre eles o que apelidamos de "Bitelão", por ser o mais comprido, com uns cinco quilômetros de extensão. Na rodovia Anchieta, a atração era a paisagem: via-se de perto a Mata Atlântica que o santo jesuíta desbravou, há 465 anos, para fundar a cidade de São Paulo.
Nosso destino era sempre o mesmo: Itanhaém. Certa vez eu e Paulo visitamos as ruínas do velho mosteiro fundado pelos jesuítas, no alto de um morro de pedra. Na época eu tinha 23 anos e me considerava ateu; mas talvez meu pai rezasse silenciosamente naquela casa de transcendência. Os montes, como vocês sete sabem, são o lugar do encontro do homem com Deus.
Dizem que José de Anchieta, quando morou em Itanhaém, costumava deitar-se em um leito de pedra numa das praias locais. Inúmeras vezes visitamos a "cama de Anchieta", onde os turistas até hoje se deitam para fazer fotos. Quantos poemas o Apóstolo do Novo Mundo terá concebido ali?
O sol, o sal, a areia e a água eram como que os elementos de meu pai. Na praia, ele se sentia de novo o garoto interiorano que aprendeu a nadar em açude e só viu a primeira piscina aos 18 anos de idade. Talvez o mar de Itanhaém lhe despertasse uma lembrança atávica dos ancestrais espanhóis, que viveram em Múrcia, à beira de um lago de água salgada chamado Mar Menor.
Depois de três anos, estou voltando ao mar. Vamos passar sete dias em uma pequena praia. É natural que a viagem me faça sentir saudades de Paulo, até porque ele completaria 78 anos no próximo dia 26.
Eu era bem pequeno quando certa vez perdi o meu pai de vista na praia. Durante alguns minutos, perambulando entre os banhistas, tive medo de perdê-lo para sempre. Se ele desaparecesse no mar, o que seria de mim? Há dez anos, esse meu medo se confirmou.
Um dos escritores preferidos de meu pai, sobre quem conversávamos em Itanhaém, era Ernest Hemingway, que no fim da vida escreveu "O Velho e o Mar". Agora, quando molhar os pés no mar, pensarei no meu velho. E ouvirei, no fundo da memória, a sua voz desafinada cantando a alegre canção:
"Eu vim aqui pra tomar banho de maire
Eu vi, eu vi, passarinhos a voaire"
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