Mendigo de misericórdia
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de maio de 2018
por Paulo Briguet 

1. O sofrimento é o meio que Deus utiliza para mostrar ao homem a sua verdadeira condição. Rejeitá-lo, portanto, significa dar as costas à realidade e ao próprio sentido da vida. É sobre isso que Dostoiévski falava quando escreveu: "Senhor, fazei-me digno do meu sofrimento". Se a vida tem sentido, a dor também tem.
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2. No mundo moderno, o tabu da morte deu lugar ao tabu do sofrimento. Em nome da cessação do sofrimento, tudo é permitido inclusive matar. Vivemos a negação completa do que Jesus disse no Sermão da Montanha: "Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados".
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3. Para ser absolutamente sincero, confesso que não tenho mais qualquer ilusão de caráter político. Só acredito na vida eterna e mais nada.
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4. Tudo que eu quero nesta vida é perdão. Sou um mendigo de misericórdia.
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5. "Às vezes não posso defender-me contra ideias que me entristecem e inquietam, como se fossem um pressentimento sombrio. Sinto-me subitamente invadido pela dúvida e pergunto-me se o teu coração responde à tua inteligência e às tuas qualidades espirituais; se é acessível aos sentimentos de ternura que aqui na terra são uma grande fonte de consolo para uma alma sensível; e se o singular demônio do qual o teu coração é claramente vítima é o espírito de Deus ou, pelo contrário, o de Fausto. Pergunto-me se alguma vez serás capaz de desfrutar de uma felicidade simples, das alegrias da família, e se poderás fazer felizes os que te rodeiam."
(Carta de Heinrich Marx a seu filho Karl, 1837)
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6. "Quem é Deus? Perguntei-o à terra e disse-me: Eu não sou. E tudo que nela existe respondeu-me o mesmo. Interroguei o mar, os abismos e os répteis animados e vivos e responderam-me: Não somos o teu Deus; busca-o acima de nós. Perguntei aos ventos que sopram; e o ar, com seus habitantes, respondeu-me: Anaxímenes está enganado; eu não sou o teu Deus. Interroguei o céu, o Sol, a Lua, as estrelas e disseram-me: Não somos nós também o Deus que procuras. Disse a todos os seres que me rodeiam as portas da carne: Já que não sois o meu Deus, falai-me do meu Deus, dizei-me, ao menos, alguma coisa dEle. E exclamaram com alarido: Foi Ele quem nos criou. (...) Perguntei pelo meu Deus à massa do Universo, e respondeu-me: Não sou eu; mas foi Ele quem me criou."
(Santo Agostinho, Confissões)
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7. Numa biografia do filósofo alemão Martin Heidegger, conta-se que um amigo o via dobrar os joelhos e molhar as mãos em água benta quando passava por igrejas e capelas. O amigo perguntou a Heidegger se aquilo não era incoerência, já que o filósofo se afastara dos dogmas da Igreja muitos anos antes. Heidegger respondeu: "Onde tanto se rezou, o Divino está próximo de maneira muito especial".
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