Memórias do Araucana Bar
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segunda-feira, 27 de agosto de 2018
Paulo Briguet 
1- Descendo a Rua Pernambuco, vejo que um imóvel está à venda. Ah, se aquelas portas falassem! Ali, há quase trinta anos, existia o Araucana Café Bar, praticamente meu segundo endereço no longínquo ano de 1990. Estudante de jornalismo que pouco estudava e muito farreava, este futuro cronista de sete leitores frequentava o referido estabelecimento quase todas as noites, e as noites só terminavam no dia seguinte.

2 - O Araucana era um bar bastante exótico. Ali não se usava luz elétrica; todas as mesas eram iluminadas por grossas velas que derretiam a noite inteira. O principal prato servido pela cozinha era a pizza frita; durante alguns meses, a pizza frita e o Miojo da República foram minha única alimentação. Só um milagre de Deus explica a sobrevivência daquele universitário (ateu na época).
3- A proprietária do Araucana era uma simpática chilena que atendia pelo nome de Gabi. Nas caixas de som, ouvia-se o repertório daqueles grupos que faziam muito sucesso entre a juventude universitária da época, tais como Raices de America e Tarancón, além da indefectível Mercedes Sosa. A trilha sonora só mudava quando eu e meu parceiro Preto - irmão e amigo fiel - pedíamos para tocar violão. Aí começávamos uma longa jornada noite adentro pela música popular brasileira, tocando aquelas canções que hoje em dia o meu amigo Chico Buraco gosta de parodiar.
4- É preciso lembrar que estávamos em tempos de inflação. Collor havia sido eleito no ano anterior e uma de suas primeiras medidas foi tão radical que não seria descabido classificá-la como leninista: o confisco das poupanças. Não por acaso, quem assinou o confisco (e um novo congelamento de preços) foi uma ex-militante do Partido Comunista Brasileiro. Tudo isso para nada!
5 - Eram dias de crise e incerteza, muito parecidos com os nossos. Eram dias em que o nosso refúgio era a noite. Militantes do PT, acreditávamos que tudo se resolveria quando o companheiro Lula finalmente chegasse ao poder. Enquanto nós sonhávamos na mesa do Araucana, Lula se unia a Fidel Castro e outros chefões da esquerda latino-americana para fundar o Foro de S. Paulo. Jamais eu poderia imaginar que Lula um dia faria campanha de uma cela, preso por corrupção.
6 - No meio da noite, Gabi se levantava, deixava o seu posto no balcão do Araucana e me fazia um pedido: "Paulinho, toca Sonhos!" E eu imediatamente cantava a canção melancólica de Peninha: "Tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo, crescendo, me absorvendo / E de repente, eu me vi assim completamente seu..."
7 - Estou fazendo um ano "sabático": decidi não beber nada alcoólico até janeiro de 2019, nem mesmo um gole de vinho. No entanto, às vezes eu acordo com dor de cabeça. Deve ser ressaca de 1990 - do tempo em que era ateu, esquerdista e tocava Sonhos no Araucana.
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