Memórias do AMA-Comurb
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de outubro de 2016
por Paulo Briguet 

"Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo."
(Georges Santayana)
A maior tragédia de Londrina não foi uma catástrofe natural nem um acidente de percurso. Não foi a geada de 1975 nem a morte de algum filho eminente. Não foi uma epidemia, nem um incêndio, nem uma queda de avião. A maior tragédia de nossa cidade foi o escândalo AMA-Comurb, quando milhões de reais foram desviados da maior empresa pública municipal. Ao todo, a verba era de R$ 186 milhões. Em valores corrigidos, o estrago representa mais do que o orçamento atual da Prefeitura. Motivo de vergonha nacional, o desvio atrasou em muitos anos o desenvolvimento da cidade. É preciso meditar sobre o que aconteceu naquele tempo, para que nunca mais se repita.
Lembro-me perfeitamente do dia em que o promotor Bruno Galatti convidou-me para ir ao seu gabinete no Fórum de Londrina. Eu tinha 29 anos e começava a perder minhas ilusões com a esquerda. Um dos motivos de meu desencanto era o apoio de companheiros políticos, em que eu antes confiava, ao grupo político que comandava a cidade e o Estado naquela época. Esquerdistas e populistas andaram de braços dados na eleição de 1998; isso me fazia desconfiar de que tudo não passava de uma grande mentira. (Alguns desses políticos esquerdistas atualmente são réus ou estão presos.)
Entrei na sala do Dr. Galatti e ele me passou uma imensa pilha de documentos. Comecei a lê-los, um por um. Eram dezenas de contratos forjados de serviços públicos que jamais aconteceram. Todos os contratos tinham valores próximos a R$ 150 mil, máximo permitido para dispensa de licitação segundo a lei da época. Recordo-me especialmente de um dos documentos, relativo à Comurb. Na capa, o documento continha um nome pomposo: "Projeto de Modernização do Trânsito na Área Central de Londrina". Você ia ver o conteúdo do projeto, era o xerox de um manual de veículo, desses que a gente guarda no porta-luvas do carro. Todos os contratos que eu vi naquele dia seguiam o mesmo padrão tosco.
Naquele dia eu chorei.
Quando li as primeiras sentenças do juiz Sérgio Moro na Operação Lava-Jato, minha memória se voltou para os "contratos" de 1999. Havia uma semelhança aterrorizante entre o que fizeram com a Sercomtel e o que fizeram com a Petrobras. Eis a terrível verdade: Petrolão e o Mensalão foram criados a partir do escândalo AMA-Comurb! Nossa cidade foi o balão de ensaios para o esquema que, adotado em escala federal, destruiu o País.
Mas, de onde saiu o veneno, nasceu também o remédio. O exemplo de Londrina na reação ao AMA-Comurb teve repercussão e reconhecimento internacional. Aqui nasceu a Operação Lava Jato. Aqui nós fizemos, em termos proporcionais, as maiores manifestações pelo impeachment no Brasil.
É dever do novo prefeito eleito meditar sobre esses acontecimentos e agir com transparência, tendo por norte as lições da história. A cidade estará vigilante.
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