Imagem ilustrativa da imagem Memórias de um repórter da Folha (1)
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Em algum dia de 1994, por volta das sete e meia da manhã, peguei o ônibus perto da Rua Cacilda Becker, desci no ponto da Praça Sete de Setembro, atravessei o Bosque Marechal Rondon (onde havia garnisés) e abri a porta de vidro da Folha de Londrina. Eram os meus primeiros meses como repórter do jornal. Na época, eu era o segundo a entrar na redação; o primeiro era o Jota Oliveira, que editava a Folha Rural. Curioso: o novato e o veterano da equipe acendiam as luzes da redação.

Eu era foca. Minha pauta do dia era encontrar o filho de um falecido jornalista da cidade, que desaparecera por muitos anos e fora encontrado por um empresário no centro de Fortaleza. Durante todo tempo em que esteve desaparecido, o filho do jornalista levara uma vida de andarilho, percorrendo milhares de quilômetros e várias regiões do país a pé ou de carona.

Em Fortaleza, o filho do jornalista vivia nas ruas. Comunicativo e simpático, gostava de conversar com os frequentadores de cafés no centro da cidade. Um desses frequentadores era um empresário cearense que se interessou pela história daquele homem. Ficou sabendo que o personagem nascera em uma cidade do Norte do Paraná, cujo nome era Londrina. O homem lhe disse também ser filho de um saudoso jornalista que trabalhara na imprensa local e hoje dava nome a uma escola do município. Comovido com a situação do filho do jornalista, o empresário cearense decidiu trazê-lo de volta a Londrina, onde ainda moravam seus familiares.

No dia anterior, eu havia conversado com o empresário cearense. Minha expectativa era de que o filho do jornalista estivesse com ele no hotel, mas não: o homem preferira retirar-se para uma chácara da família, na zona leste da cidade.

Saímos, então, em busca do filho do jornalista: este cronista de sete leitores, na época um repórter de três leitores; o fotógrafo Dorico da Silva e o motorista Wanderley. Ao passar diante do cemitério, Dorico sempre dizia:

- Salve as almas!

Deus sabe das dificuldades que tivemos para encontrar a tal chácara! As referências não eram muito boas; o endereço que tínhamos não era da chácara, mas de alguém que sabia onde ficava a chácara. Essa pessoa, na verdade, não sabia onde ficava a chácara, mas nos disse que o dono de um bar na Rua das Maritacas sabia. E lá fomos nós três, no carro da Folha, em busca do bar na Rua das Maritacas. O dono do bar, por sua vez, nos deu indicações muito confusas.

Depois de quase três horas, encontramos a chácara. O lugar era soturno; a casa tinha todas as janelas fechadas; apenas um cachorro magro nos recebeu com um latido rouco. Bati palmas e, depois de uns cinco minutos, a porta se entreabriu. Um homem magro, com a barba de vários dias, apresentou-se como o filho do jornalista. Suas frases não eram muito claras. Enquanto Dorico o fotografava, eu tentava anotá-las em meu bloquinho.

- Lá em Fortaleza eu gostava muito de café, café coado, café carioca, café espresso...

Muitas vezes, quando tomo um café depois do almoço, lembro-me daquele homem, daquela casa, daquele dia e daquela frase do Dorico. Salve as almas!

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