Memórias de um piá de prédio
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de novembro de 2016
por Paulo Briguet 

Confesso: eu sou um piá de prédio. Note-se que eu uso o verbo no presente; uma vez piá de prédio, sempre piá de prédio.
Lembro o "playground" no prédio da Rua Vitorino Carmilo, área central de São Paulo, onde morei com minha família de 1976 a 1981. Foram apenas seis anos, mas parecem uma eternidade. É que o tempo entre os 6 e os 11 anos de idade passa com uma lentidão espantosa.
Playground! Palavra pretensiosa para designar um lugar tão desolado. Na verdade, era um quintalzinho de cimento, sem um só pé de planta, com pouco mais de 100 metros quadrados, onde a criançada do prédio se reunia para jogar futebol e andar de velotrol. O nosso playground parecia ter sido projetado por um discípulo bem maldoso de Oscar Niemeyer.
Éramos apenas quatro moleques no prédio: eu, Marcelão, Marcelinho e Mário. Todos torcíamos para o Palmeiras. Um dia, resolvemos fundar um clube. Pedimos autorização ao vice-síndico (pai da Patrícia, minha primeira paixão platônica), juntamos uns trocados e escrevemos com tinta verde no muro caiado: JUMEIRAS F. C. Explico: Jumeiras era o nome formado pela junção entre o nome do prédio (Edifício Juréia) e o nome de nosso time de coração.
Certa vez, ganhei uma bola dente-de-leite muito bonita. Meu primo Alvinho estava passando férias em São Paulo um menino do interior jogando bola com quatro piás de prédio. A certa altura, chutamos a bola muito alto e a minha dente-de-leite novinha caiu no quintal do vizinho, na sede da revista católica Convívio, onde havia um perigoso pastor alemão. Era domingo, só o cão de guarda estava na Convívio, e ele não combinava com o nome da revista. Alvinho pulou o muro, subiu no telhado, enfrentou a fera e heroicamente recuperou a bola. (Curiosamente, o professor Ricardo Vélez Rodríguez, um dos principais nomes do liberalismo latino-americano, era redator da Convívio na época. Hoje ele mora em Londrina. Éramos vizinhos e não sabíamos.)
Sempre fui perna-de-pau no futebol. Invariavelmente, ficava em quarto lugar nos campeonatos internos do Jumeiras F. C., atrás de Mário, Marcelão e Marcelinho (o que era uma vergonha, porque o Marcelinho era é dois anos mais novo). Nem medalha de bronze eu faturava. Aquela quadra de cimento era um purgatório; existirá ainda?
Até hoje sonho que estou jogando futebol no playground do Jumeiras F. C. Em meu sonho, consigo driblar Marcelão e Marcelinho e fazer um belíssimo e decisivo tento no canto do goleiro Mário. Finalmente, sou campeão entre os piás de prédio. E a bola é aquela dente-de-leite que o Alvinho resgatou, enfrentando o cachorro da Convívio.
Sou um piá de prédio. Fui criado brincando de elevador (Seu Bill, o zelador, nem se incomodava mais quando tocávamos o alarme.) Certo dia jurei ter ouvido um fantasma ao descer as escadas em direção ao playground. Talvez, esse fantasma fosse eu mesmo, viajante do futuro a dizer:
Paulo, fique tranquilo. Um dia você terá um filho e ele também será um piá de prédio.
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