Memórias da USP (Parte I)
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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
por Paulo Briguet 

Há exatos 30 anos, um rapaz interiorano passou no vestibular e foi cursar Filosofia na USP. A mãe chorava inconsolavelmente ao despedir-se do filho na rodoviária. Quando o ônibus que o levava a São Paulo parou no posto Maristela, o jovem acordou de sonhos agitados e a primeira imagem que lhe veio à mente foi a de sua mãe, chorando, chorando. Ele sabia que ela estava rezando também por ele. Mas o jovem não rezava.
Ele foi morar com mais três estudantes. O apartamento ficava no 22º andar de um prédio na Bela Vista, bairro paulistano popularmente conhecido como Bexiga. Da janela, podia ver a imensa torre da Avenida Paulista, que quase funcionava como uma luminária extra em seu quarto.
Os únicos aparelhos eletrônicos disponíveis na casa eram um toca-fitas e uma TV em preto e branco com uma tela minúscula. Ali, numa madrugada silenciosa, ele assistiu pela primeira vez "La Dolce Vita", de Fellini, e ficou impressionadíssimo com a morte de Steiner. De manhã, no toca-fitas, ele ouviu a canção de Renato Russo: "Todos os dias quando acordo / Não tenho mais o tempo que passou / Mas tenho muito tempo / Temos todo tempo do mundo..." E era uma típica manhã cinzenta de São Paulo.
Para ir ao campus, pegava a linha de ônibus Vila Nilo. Nunca soube onde raios ficava essa tal Vila Nilo, mas o fato é que o ônibus o conduzia até o Departamento de Filosofia da USP, na popular Fefeléchi (apelido carinhoso da Faculdade de Ciências Humanas). Na parede do banheiro da faculdade, alguém havia escrito: "Cante com Kant!"
Mas a professora por um triz, ele não foi aluno de Marilena Chauí não ensinava Kant, e sim Descartes. Ele comprou um grosso volume com as obras do filósofo francês, numa livraria que ficava ao lado do Teatro Cacilda Becker. Levava o livro para cima e para baixo. Uma vez até o levou ao bar, numa noite em que bebeu quantidades industriais de cerveja com seus amigos Zé e Bonfim, no Bexiga.
Um dia ele abriu o livro no ônibus e começou a ler as "Meditações". Em determinada passagem, Descartes imagina a figura do Gênio Enganador um deus maldoso que na verdade não criou o mundo, apenas se diverte. O tal Gênio me engana o tempo todo, fazendo-me crer que a realidade existe. É o primeiro passo para um absurdo chamado solipsismo: a doutrina segundo a qual só existe o EU no universo.
Aquela passagem, que o rapaz leu quando o ônibus passava pela Avenida Paulista, num final tarde chuvoso, era o começo de uma longa noite do espírito, que só acabaria muitos anos depois, quando esse mesmo rapaz viu uma igreja incendiada na cidade de Mariana, em Minas Gerais, e sentiu que aquele templo em ruínas era sua própria alma.
Em casa, lá na cidade do interior, a mãe do estudante de Filosofia rezava. Dar-se-ia, nas próximas décadas, um grande embate entre Nossa Senhora e os pensamentos sombrios que infestavam a mente do jovem.
Esse rapaz preciso dizer? sou eu.


