Imagem ilustrativa da imagem Memória dos objetos
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1. As coisas lembram. Cada objeto tem uma história para contar. Lembram porque é da natureza das coisas lembrar. Natural que o espelho do banheiro grave a passagem dos dias, quando lavamos o rosto, manhã após manhã; que o pente seja testemunha da calvície progressiva (pois que não há calvície regressiva); e que o telefone seja um grampo em si mesmo, calado e risonho diante dos absurdos proferidos no vão dos alôs. E que de repente, logo depois de acordar, você se lembre dos anões do jardim na casa da Higienópolis.

2. Despedem-se, as coisas. Adeus, computador que deu pau e levou todos os arquivos. Até nunca mais, guarda-chuva esquecido na agência bancária. Passar bem, cabelo cortado que jaz no chão da barbearia. Felicidades, folhas secas na calçada. Como vai, anão do jardim? (Ou você é um gnomo?)

3. Temos saudade de tudo. Da cadeira que rangia. Do gesso no pé assinado pelos amigos. Do sabonete Alma de Rosas que acaba. Da chuva sobre o lago. Do vinho Sangue de Boi nas festas da República. Dos analgésicos no dia seguinte (sempre havia um na caixinha de emergência do Beto). Da loja de muletas. Do zelador que parecia o Morgan Freeman. E, claro, dos anões do jardim da Higienópolis.
4. Sentimos falta do Kichute. Do canivete mil-utilidades que vovô emprestava nas pescarias. Da mochila da 1ª série — nunca encontraremos uma igual, aquela com fecho de olho de gato assim, ó. Do terço de contas azuis pendurado no retrovisor do carro. Do Fiat 147 que um dia deu carona a um pastor alemão. Do Fusquinha 79 cujo motor fundiu a caminho do aniversário de 20 anos. Da grama da UEL e seu cheiro. Do brinco perdido pela garota nessa grama. Sem esquecer os anões do jardim que também viviam na grama, lá na casa da Higienópolis.
5. Da máquina de escrever, que tanta bobagem datilografou, às vezes bate uma saudade. E se aquele toca-discos da República resolvesse funcionar de novo, que grande repertório! Tocaria "Rivers of Babylon", de Bonney M., que é o Salmo 137. Sem saber, quando tocávamos aquele disco na República, estávamos ouvindo um poema bíblico. Mas a máquina sumiu; a vitrola pifou; os discos foram roubados; e a República acabou demolida. Assim como foi demolida a casa dos anões do jardim.
6. Às vezes eu penso que até os anões de jardim da Higienópolis se lembram da madrugada em que alguns notívagos tentaram roubá-los. No entanto, se pudessem falar, os anões diriam que o maior de todos os ladrões se chama tempo.
7. Pois foi ele, o tempo, que me fez lembrar de todos esses objetos, escondidos no fundo da gaveta, nas páginas velhas de um velho caderno, da época em que os anões do jardim ainda estavam lá...

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Aviso aos meus sete leitores:
E por falar em tempo, a Avenida Paraná deixa de ser publicada por 30 dias, nas férias do cronista. Sentirei saudades, mas um mês passa voando...

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