Imagem ilustrativa da imagem Meditação sobre os pais
Retrato de Tolstói – Mikhail Nesterov (1907)



Na inauguração do Teatro Mãe de Deus, o médico Gilberto Martin, secretário municipal de Saúde, sentou-se ao meu lado. Notei que meu amigo estava triste, apesar da ocasião festiva. Perguntei a ele o que acontecera.
— Estou preocupado, Paulo. Meu pai sofreu uma queda em casa e está na UTI.
No último domingo, aconteceu o que Gilberto e seus familiares temiam: apesar de todos os cuidados médicos, o sr. Mariano Berguio Martin morreu aos 86 anos de idade. Foi um homem generoso, feliz, lúcido e trabalhador.
Na manhã em que nos encontramos, Gilberto contou-me que seu pai nasceu em Itajobi, no interior de São Paulo. É uma feliz coincidência geográfica: meu pai nasceu em Santa Adélia, pequena cidade da mesma região. Surpreendi-me ao saber que Mariano Martin e Paulo Lourenço moraram ambos em Catanduva; talvez tenham se conhecido! Afinal, Catanduva não era tão grande assim...
Gilberto contou-me ainda que sua família veio para o interior do Paraná nos anos 60. Quando chegou o momento de fazer colegial, ele se mudou para Londrina, pois tinha o sonho de cursar Medicina na UEL. Gilberto trabalhou como mensageiro no antigo Hotel Nóbile para custear os estudos. Da mesma forma, Paulo enfrentou dificuldades imensas para trabalhar e realizar o sonho de cursar a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Conseguiu, à custa de grandes sacrifícios. Ao contrário do sr. Mariano, de Gilberto e de meu pai, faço parte de uma geração que teve todas as facilidades na vida. Sou imensamente grato por isso.
Dirijo-me agora ao amigo Gilberto e a todos aqueles que perderam seus pais recentemente. Há oito anos, desde que Paulo partiu para a Jerusalém Eterna, eu sei quão difícil é passar o Dia dos Pais sem ele. Há um silêncio, uma dor sem nome, uma canção triste, um sopro na relva. Nesses momentos, Gilberto, eu me lembro de uma alegria que Deus nos deu: a alegria de podermos chamá-Lo Pai.
Santo Agostinho nos ensina, no livro "Sobre o Sermão do Senhor na Montanha" (presente de meu querido amigo Cláudio Tedeschi):
"Disseram-se muitas coisas em louvor de Deus, as quais, profusamente e extensamente esparzidas por todas as Santas Escrituras, qualquer pessoa pode ler e meditar; mas nestas não se encontra um só lugar em que se ordene ao povo de Israel que diga ‘Pai nosso’ ou que ore a Deus Pai. (...) E não é mérito nosso termos sido chamados à eterna herança para que sejamos co-herdeiros de Cristo e alcancemos a adoção de filhos; é-o da graça de Deus, da mesma graça que reconhecemos no início da oração, ao dizer: Pai nosso."
Gilberto, meu amigo: agora você faz parte daquele imenso grupo dos filhos que perderam seus pais — a irmandade dos órfãos. Mas precisamos dar graças a Deus pela sorte de os guardarmos em três letras que cabem na parte mais preciosa de nós mesmos: "Porque onde está o teu tesouro, lá também está o teu coração" (Mt 6,21).

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